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Eu vi o meu passado passar por mim
Dá pra ver no navegador também
Uma mulher. Escrevendo. Seus problemas. E mudando a internet brasileira.
Ano 3, edição 56


Faz três meses que eu saí de mais um episódio de depressão. Essas crises têm sido tão frequentes e regulares que eu até pensei em ajustar meu calendário em torno delas. Mentira, agora eu vou tomar remédio diretão e devo ficar um bom tempo sem ter nada.
Tô apostando tudo na minha padroeira, a santa Pfizer, que abençoa a minha vida com seus filhos Effexor e Lyrica.
Quando a crise passa eu fico super empolgada pra fazer um monte de coisas, porque o mundo de repente fica tão maravilhoso que eu mal posso esperar pra resolver tudo o que tem de errado na minha vida.
Não chega a ser uma crise de mania, eu não sou bipolar, é só aquela loucurinha boa que a gente sente, sei lá, quando volta pra casa depois de uma longa viagem de ônibus vindo de um lugar muito horrível.
Eu tenho milhões de cadernos aqui em casa e anoto listas do que fazer em vários deles. Eu adoro listas, eu tenho bullet journal e várias pastas do Evernote onde eu coloco resoluções incríveis que vão me tirar do buraco onde eu normalmente fico e me levar direto pro paraíso das pessoas bem ajustadas que escrevem best-sellers e fazem vídeos sucesso no Ted Talks.
Esse ano eu resolvi começar com uma decisão ousada e até polêmica: sair da faculdade de letras. Eu gostava muito do meu curso, não me entenda mal, aprendi coisas maravilhosas e me tornei uma sujeita bem mais interessante. Mas pra mim meio que já deu, ainda mais depois que reformularam a grade do curso e pra formar eu teria que fazer várias matérias que eu não tô a fim de fazer.
Sabe aquele lance Marie Kondo de só manter na sua vida o que te deixa feliz? Eu resolvi dar um abraço bem apertado nesse curso de letras, um beijo estalado e até meio babado, agradeci bem no ouvidinho tudo o que ele fez por mim e deixei ir.
E vai por mim, isso foi muita coisa. Pro meu curso de direito, aquele que me deu diploma, eu só dei um aperto de mão bem fraquinho e ainda olhando pro outro lado.
Eu passei muitos anos da minha vida sofrendo e me preocupando com um futuro que acabou sendo muito diferente. Como todo mundo da minha geração e da minha classe social, eu fui preparada pra um emprego bem remunerado e instruída a considerar a carreira como a minha principal identidade.
E sabe o que aconteceu? Merda, muita merda. Não consegui bosta nenhuma. Senti vergonha por depender dos outros pra me sustentar. Minimizei tudo o que eu aprendi, e a pessoa em que eu me tornei porque nada disso me permitiria conseguir dinheiro a curto prazo.
Só que esse ano eu resolvi ser diferente e, desculpe o meu baianês, mas eu resolvi mandar tudo pra porra, pra casa da disgraça.
Sabe o "aceita que dói menos"? É verdade, quando a gente aceita dói muito menos. No meu caso até literalmente, por causa da fibromialgia. 
Esse foi o ano em que eu finalmente decidi fazer o melhor com aquilo que eu já tenho. Parei de ficar suspirando por um futuro tão custoso de alcançar e tô me concentrando no que já está na minha mão, e no que depende só de um empurrãozinho pra acontecer.
Não tô dizendo pra você parar de sonhar, eu jamais poderia pregar isso, uma vez que eu amo o filme Lua de Cristal e até já cantei essa linda música num karaokê. Tô falando de mim, balzaca, casada com professor universitário, orfã de mãe, filha de um portador de Alzheimer, depressiva, ansiosa, fibromiálgica, sonâmbula e com fobia de objetos que brilham no escuro.
O preço do S-U-C-E-S-S-O, esse que você consegue trabalhando enquanto os outros dormem, esse pra mim ficou alto demais.
Mas vamos falar de coisa boa, vamos falar de TopTherm, TekPix, Sônia Abrão...
Não, pera
Vamos falar de minimalismo

***



Tudo começou com os vídeos em francês que eu vejo de vez em quando no youtube. Sempre bate aquela culpa marota de não estar me dedicando o suficiente à língua do Pequeno Príncipe (que fala francês apesar de ser et) principalmente depois de já ter deixado tantos golpinhos na Aliança Francesa.
Eu assino canais de livros e de estilo de vida, e a galera andava falando demais nesse tal de minimalismo, que fazia você jogar fora tudo o que tinha em casa pra manter só o que era essencial.
Jogar fora?Jogar fora? Alguém falou em jogar fora?
Eu tenho TARA por jogar coisas fora
Lá em 2016 eu li o livro da Marie Kondo, assim como todo mundo. Essa mágica da arrumação foi mágica mesmo, daqui de casa saíram sacos, sacos e mais sacos de lixo. Ô japonesa danada.
Quer dizer, mais ou menos, porque um tempo depois a minha casa ficou entulhada de novo. Dona Marie ensinou como a gente colocava coisas pra fora, mas não como a gente impediria outras coisas de entrar.
Aí que entra o minimalismo
Olha que louco, você não precisa de tanta coisa assim pra viver. E eu não digo subsistir, mas viver mesmo, com conforto e felicidade. A gente enche a casa e a vida de tralha, compra coisas sem nem pensar, mantém outras porque talvez-quem-sabe-um-dia elas possam ser úteis e se recusa a se livrar de uns trem gigante porque eles lembram aquele dia em mil novecentos e antigamente em que a gente foi feliz por uns 15 minutos.
Tudo o que fica na nossa vida sem ter um propósito tá atravancando a nossa vida. Aí vale a dica de tirar tudo do lugar, mexer com a ordem das coisas e refletir sobre os objetos com os quais a gente se acostumou.
Foi nessa empolgação que eu resolvi assistir na netflix Minimalismo: um documentário sobre as coisas que importam, da dupla "The Minimalists" Joshua Milburn e Ryan Nicodemus.
Mas aí no fim eu pensei, ué, não era isso que eu tava querendo não.
No filme tinha gente rica muito rica, gente que trabalhava umas mil horas sendo muito incrível, mas resolvia que dinheiro não trazia felicidade e por isso resolvia largar tudo, jogar as coisa fora, juntar o que sobrou numa mochila e sair por aí.
Ou então vender a casa e morar numa tiny home, que é tipo um trailer, só que descolado e hipster
E quando essa gente resolvia morar numa casa, era um lugar todo branco, de cegar o olho da gente, com só uns pontinhos de cor e um cacto pra não dizer que era um hospital.
Mas o que me incomodou mesmo foi a conversa quase religiosa dessas pessoas. Veja bem, desde Santo Agostinho que as narrativas de conversão têm sido assim: uma vida de pecado-um momento de revelação-mudança na vida-pregar a vida santa pros outros.
Com os minimalistas do filme era igualzinho. Eles vinham de um lugar de "pecado", consumismo, empregos que pagavam muito e exigiam muito também, e iam pra uma vida "santa", jogar tudo fora, viver com quase nada. O minimalismo era apresentado como "a verdade" uma atitude que mudava a vida todinha e fazia ela ter sentido.
Menos, gente, bem menos
Quem pode jogar tudo fora e viver com o que cabe em uma mochila é quem sabe que pode comprar tudo de novo se quiser. Quem vai pra uma tiny home pode enjoar e morar numa casa normal de novo. Sem falar que essas decorações sem nada dão uma sensação estranha, são de uma austeridade forçada, até opressiva.
Eu não gosto de fanatismo religioso. Nem de religião eu gosto, pra falar a verdade, só se for bem de longe, lendo sobre e sem participar de ritual nenhum. Eu não vou me colocar numa situação em que uma "seita" vai ficar me dizendo o que ter e como agir.
E cadê a crítica ao capitalismo, que é o verdadeiro culpado de a gente estar nessa situação? Só colocar imagens de uma Black Friday selvagem qualquer não vale.
Nada contra os que são como esses aí de cima, conheço até pessoas em documentários que são.
Mas e agora, como eu faço pra ser minimalista?
Minha solução foi voltar pro youtube. Aí eu conheci canais de gente normal, que guarda ítens sentimentais sim, tem decoração sim, e tá sempre em processo de aprendizado. E o melhor, gente que não quer pregar nada, nem se sente melhor que os outros por adotar um determinado estilo de vida. Esse é o meu povo.
Os canais que eu mais gosto atualmente são esses aqui:


Gringos

Ashlynne Eaton que é muito fofa e dá vontade de apertar as bochechas. 

Lia's Loft que levanta umas questões bem importantes e fala abertamente de ansiedade e depressão

Abundantly Minimal tem umas listas muito boas e muita viagem, no bom sentido

Break the twitch uns vídeos tão bem editadinhos que fica impossível não entender as coisas

Justine Leconte pra eu me interessar por um canal sobre roupa ele tem que ser bem bom mesmo, e essa mulher dá umas dicas incríveis pra quem não quer ser fashionista, só botar uns panos por cima do corpo pra cobrir as vergonhas


Brazucas

Vivi Cardinali a mulher que me fez entender finalmente o que diabos é um armário cápsula. Resumindo muito, é um jeito de ter menos peças que se combinam muito entre si, pra gerar uns look bem diferentes e sem cara de quem usa a mesma roupa todo dia (ainda que esteja usando sim)

Consumenos adaptando o minimalismo e o lixo zero pra realidade brasileira, com muitas trocas de cor de cabelo

Menos Um Lixo é mais pra lixo zero, mas fala de armário cápsula também


A evolução natural pra quem vê muitos vídeos de minimalismo é passar pros de lixo zero, mas eu fico devendo falar mais sobre isso. Quem sabe em outra cartinha. Só digo que tô muito na vibe.
E pra adiantar, deixo aqui a opinião da Cristal do Um ano sem lixo sobre o filme dos Minimalistas, aquele que eu mencionei lá em cima.

O minimalismo raso que não resolve nada do documentário Minimalism


***


O único jeito de fazer uma coisa da moda não se tornar mais um modismo é fazer uma adaptação pra vida que você tem e pra vida que você quer. Minimalismo já existe há um tempão, só não tinha esse nome. 
Eu mesma era minimalista quando era xóvem, não tinha dinheiro, e vivia muito bem com três pares de sapato, poucas roupas e uma estante de livros bem minguada. Acho que no fundo o que eu queria era voltar a ter essa simplicidade.
Eu nunca fui de curtir ter várias peças de roupa. O problema é que eu engordei muito desde que eu casei, em 2010 (cof cof, 15 quilos) e fui obrigada a renovar o guarda-roupa constantemente pra não ser presa na rua por atentado ao pudor.
Daí que eu entrava numa dessas lojas grandonas uma vez por ano, saía comprando tudo o que via pela frente e só pensava no assunto no ano seguinte, quando as roupas estragavam ou eu engordava e tinha que comprar tudo de novo.
Não era muito inteligente, e eu sentia sempre que tava muito mal vestida.
Esse ano eu fiz aquela limpa violenta nos meus cabides. Quase tudo se foi, e só ficaram peças que eu amava muito e vestiam muito bem. Porque é pra ter em casa coisas que você ama de verdade, caso contrário elas vão ser mais úteis no armário de outra pessoa.
Depois do minimalismo eu comecei a ler sobre moda, um assunto que nunca me interessou, e eu enfim entendi o que funcionava pra mim. Entendi que, por exemplo, cinza não fica bem com o meu tom de pele, e que era por esse motivo que as roupas cinza que eu comprava acabavam empacadas no fundo das gavetas. 
Agora eu só tenho coisas em tons de azul, verde, rosa e neutros não-cinza. Ficou bem mais fácil de combinar tudo com tudo e eu visualizo muito mais facilmente as peças que seriam legais de comprar.
Tenho planos de não seguir nessas oscilações violentas de peso, se bem que com a quantidade de remédios que eu tomo, nunca se sabe. Resolvi ser mais consciente daquilo que eu como, sem fazer dieta, só evitando ao máximo os ultraprocessados. A Rita Lobo ensina direitinho como reconhecer os ditos cujos nesse texto aqui.
Eu e o Lucas agora damos preferência a comprar no sacolão do bairro. Quase não vamos mais a supermercados, ainda mais agora que eu redescobri o Mercado Central de BH. 
Falando em bairro, nós voltamos a ficar apaixonados pelo nosso. A gente mora na região da Pampulha, perto da UFMG, e sempre sonhamos em morar um dia no Centro-Sul, onde tudo acontece e onde ficam as coisas mais legais da cidade.
Mas aí que eu passei a caminhar mais por aqui mesmo, já que não tendo aulas eu poderia voltar a fazer yoga e pilates pela manhã. E assim eu me dei conta de que eu moro num lugar muito bom, eu só tinha esquecido disso por ficar sempre de olho na grama do vizinho.
O minimalismo nos lembra de valorizar aquilo que a gente já tem, e fica mais fácil fazer isso tirando o excesso e a tralha do caminho. Depois que eu me livrei de várias coisas que estavam empacadas aqui em casa eu concluí que o nosso apartamento nem é tão pequeno assim, e perdi a vontade de me mudar pra um maior algum dia.
Eu também desisti do meu antigo sonho bizarro de ter uma biblioteca igual à da Bela e a Fera. Quem é que vai limpar e carregar tanto livro? Sem falar que a crescente pilha dos não lidos só dava mais ansiedade.
E pra completar esse clima de amor eu realizei um desejo antigo: o de trazer meu pai pra perto de mim. Desde o diagnóstico dele há três anos que ele vive na mesma casa de repouso, que é legal, mas fica meio longe e me exige muito planejamento pras visitas. A partir da próxima segunda ele vai passar a morar a três ruas da minha casa, e eu mal posso esperar pelos passeios com ele, o cachorro, Lucas, minha irmã, todo mundo.
Porque é isso que importa na vida, dar valor ao que já é importante. Minha família, minha saúde, as coisas que eu me interesso em aprender, aquilo que eu escrevo:  é disso que eu preciso pra ser feliz. O resto era só o mato que tava cobrindo a vista.




***

Eita, demorei pra escrever, mas quando cheguei, escrevi um monte.
E antes de encerrar, #mariellevive #lulalivre
E até a próxima!


 
Essa aí da foto é Camila, que sou eu.
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