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Um pouco sobre a minha mãe
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                                     Thaís (de óculos) minha mãe e eu em 2005

Oi <<First Name>>!

 

Eu sei, atrasei publicação de novo. E em minha defesa, eu já estava preparando um textão aqui. Eu iria contar a história de como os meus pais se conheceram, o retorno da minha ansiedade e os sonhos de desabamento que me torturam todas as noites.

Mas eu concluí que tudo isso pode esperar, porque nós precisamos mesmo é fazer uma viagem ao ano de 2006. Mais exatamente, a dezembro de 2006, ao começo desse período tão cheio de eventos na minha vida e que completa dez anos agora.

Pra quem não faz ideia, foi isso que aconteceu entre dezembro de 2006 e janeiro de 2007.

- Minha mãe morreu

- Formei em direito

- Passei num mestrado em antropologia em São Carlos-SP

- E em São Carlos comecei a namorar o Lucas (meu marido há seis anos)

 

Eu nem vou pro clichê de dizer que “foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos”, porque acho que foi mais pra pior. Mas o que houve de bom foi tão forte, que está por aí até hoje. Talvez o universo nem me odeie tanto assim. 

Eu estou obviamente falando do Lucas, porque nem a graduação que eu terminei, nem esse mestrado que eu larguei no começo serviram pra nada na minha vida.

Essa é a primeira de uma série de edições em que eu vou falar desses acontecimentos aí de cima. A meta é de ser um por semana, até fechar o mês. Se eu conseguir.

Eu vou começar falando do último mês de vida da minha mãe. Vou pegar leve, mas se você achar que é barra demais, pode pular esse pedaço e ir direto lá pro final.

Então vamos…

 

                                                        ***


                                              Última foto que tiramos juntas


Quem eu era em dezembro de 2006? Uma pessoa de 21 anos, com muitos quilos a menos, e que se arrastava em um namoro desses que ninguém quer estar mais, mas ninguém tem coragem de terminar. Acontece.

Nessa época eu morava com meu pai e minha irmã mais nova morava com a minha mãe, como no começo de Operação Cupido (aquele filme das gêmeas que tem um remake com a Lindsay Lohan). Mas a essa altura já estávamos super de boas com o divórcio.

Aí veio um outro golpe maior.

Após vários meses de dúvidas, e algumas viagens a Salvador pra exames, descobrimos que minha mãe tinha esclerodermia, uma condição que pra nós era um mistério.

Quando uma pessoa suspeita de câncer, e recebe o diagnóstico de câncer, a gente já está meio preparado para o que fazer. É pra surtar, é pra chorar, é pra fazer planejamento dos meses horríveis seguintes.

Nada disso aconteceu com a minha mãe. Nem ela mesma sabia como lidar. Ela começou a ter sintomas em maio daquele ano, mas eles não sugeriam nada gravíssimo como viria a ser. A esclerodermia é uma doença autoimune que faz com que o colágeno se acumule em excesso na pele e nos órgãos internos.

Os sintomas que a minha mãe tinha eram rigidez nas mãos, diferença na tonalidade de algumas partes da pele, muito frio e cansaço. Cada sintoma novo era uma completa novidade.

A vida não estava sendo fácil pra ela naquele tempo. Ela e o meu pai haviam se separado dois anos antes, e foi a minha mãe que saiu de casa.

Acho que ela só queria concluir logo aquele suplício que se arrastava havia 20 anos, e não quis disputar a nossa casa, o que daria mais problemas. Ela ficou com a casa da praia, e com parte do apartamento de Salvador. 

Falando assim parece que a gente era super rico, mas não era nada disso não. É que meu pai era o louco dos imóveis, e financiava ou construía vários por vez. Na cabeça dele, esse era o melhor investimento que existia.

Hoje eu e minha irmã temos muita dor de cabeça pra dar conta de tudo, e ficamos sonhando com o dia em que essas casas todas vão dar retorno ao invés de só trabalho.

Mas voltemos a 2006.

Logo após a separação minha mãe foi morar na casa dos meu avô, o que eu sei que foi péssimo pra ela. Ela depois acabou arrumando um apartamento fofo, decorou com o bom gosto que só ela tinha, mas precisou se mudar várias vezes, porque o azar dela nunca terminava. 

Ela acabou perdendo o trabalho na prefeitura de Itabuna depois de uma mudança de gestão. Além disso, a faculdade onde ela era coordenadora super atrasava salários e o único emprego com o qual ela sempre podia contar, que era o da secretaria de saúde, era justamente o que pagava menos.

Minha mãe era nutricionista, mas o que ela mais fazia era planejar políticas públicas.

Eu ainda sinto um pouco de culpa por não ter estado mais próxima a ela nesses momentos. Eu fazia o que eu podia, mas eu sei que o amparo maior, principalmente quando a doença piorou, veio das minhas tias, as duas irmãs mais novas dela.

Eu sempre penso nisso quando sinto raiva de como essas pessoas passaram a me tratar depois. Eu sou obrigada a ser grata a elas pra sempre.

E eu sou grata também ao pessoal da igreja batista da qual a minha mãe passou a fazer parte em 2004. A igreja foi a melhor coisa que aconteceu a ela nesses curtos dois anos em que ela esteve divorciada, e é lembrando das reuniões de pequeno grupo em casa que eu me convenço de que ela foi feliz.

Eu queria ter sido uma filha melhor, como eu estou sendo pro meu pai agora. Eu queria não ter sido tão jovem, nem ter tidos tantos planos e distrações que me afastassem dela. Eu queria ter estado ao seu lado quando a doença ficou muito pior, de uma hora pra outra, e ela não conseguiu mais sair de casa. 

No início de dezembro eu fui pra São Carlos, fazer prova do mestrado. Eu fiquei na casa do Lucas, até então era só um amigo de internet que eu havia encontrado em Salvador.

Minha mãe estava muito animada, não só com a perspectiva de eu passar a estudar longe de casa - o que ela sempre quis- mas também com a possível chance de eu trocar de namorado. Minha mãe havia conhecido Lucas em Salvador, e foi #teamlucas desde sempre.

A história com Lucas eu conto em outra edição, que essa já tá cheia demais.

Meus pais me acompanharam ao aeroporto de Ilhéus quando eu fui embarcar pra São Paulo - de onde eu pegaria um ônibus pra São Carlos depois. Foi a última vez em que eu saí com a minha mãe, e a última em que estivemos juntas fora de casa ou do hospital. Ela ainda parecia bem, apesar das limitações. 

Quando eu já estava na fila do check-in ela me perguntou se eu levava algum presente pro Lucas. Eu neguei e ela resolveu comprar uma caixa de chocolates em forma de cacau da Chocolate Caseiro Ilhéus, uma marca muito conhecida de lá. Essa imagem da minha mãe me entregando os chocolates fica se repetindo em looping na minha cabeça. 

                  Eu com uma cara péssima no aniversário do meu primo Tacinho, em 2005

Eu não sabia que ela iria piorar tanto, eu não sabia que ela iria morrer, eu não fazia a menor ideia do cenário de devastação que eu encontraria na volta. E eu fiquei fora só uma semana. Porque foi justamente na minha ausência que o quadro dela evoluiu tão rápido? E justo quando eu voltava pra casa com notícias tão boas?

Quando eu voltei, minha mãe já mal se levantava da cama sem ajuda. E eu ficava lá com ela, conversando sem parar sobre o meu namoro recente, sobre os planos de morar em São Carlos e sobre a viagem que eu e Lucas planejávamos fazer no Carnaval. E ela me ouvia no maior entusiasmo, como sempre. Minha mãe era a minha maior cheerleader, até Lucas herdar o posto dela.

Eu não tenho muitas lembranças dos piores dias, porque eu não estava lá. Como eu disse no começo, quem morava com ela nessa época era a minha irmã mais nova, que tinha 17 anos nesse tempo.

Ela que me contou das noites sem dormir, dos momentos de desespero, das dores que não passavam com nada. Enquanto isso eu estava em casa, que era a casa do meu pai, escrevendo monografia e terminando as últimas disciplinas pra poder formar.

Eu me lembro de ter conversado com a minha mãe por telefone, perto do Natal, e de ela me falar de como esperava estar melhor pra ir ao centro fazer compras. E naquele momento não havia nada que eu quisesse mais do que ir com ela. Mas isso nunca aconteceu.

No Natal ela já estava morando na casa de uma das minhas tias, que era técnica em enfermagem. Toda a família passou a festa lá, incluindo meu pai, que nessa época dava a maior assistência. 

No dia seguinte almoçamos todos juntos e eu mostrei as fotos que havia tirado em São Carlos. Minha mãe estava tão bem e animada, foi a última vez em que consegui conversar direito com ela. Eu me lembro do vestido que ela usava, do cabelo preso, e até do lugar no sofá em que ela havia ficado por boa parte da tarde. 

Ela acabou piorando muito naquele mesmo dia. Minha tia saiu por algumas horas e pediu que eu tomasse conta dela durante esse tempo. Eu não sabia o que fazer, senti raiva da minha tia por me deixar sozinha, com uma tarefa tão grande, e para a qual eu não tinha preparo nenhum.

Eu tentei disfarçar o meu desconforto pra minha mãe, mas acho que ela percebeu. E eu ganhei mais um arrependimento pra eternidade.

E não acabou aí. À noite, quando eu já estava em casa, nós recebemos uma ligação da minha tia, dizendo que a minha mãe havia tido uma convulsão. Nessa época a minha irmã já morava com a gente de novo.

Ela e meu pai saíram de casa correndo, mas eu não tive coragem. Eu já estava exausta, e a ideia de ver minha mãe pior do que eu já havia visto durante a tarde me deixou apavorada. 

Ela estava bem quando eles chegaram, mas em seguida teve outra convulsão e não se recuperou mais. Ela foi internada e uma multidão de parentes foi junto pro hospital. Todos questionavam a minha ausência lá, que meu pai e Thaís justificavam com dificuldade.

Os irmãos e irmãs da minha mãe se preocupavam muito com ela, mas não davam muita bola pra mim e pra minha irmã. Nem depois da morte da minha mãe.

Minha mãe ficou quase uma semana na Santa Casa de Itabuna, onde eu acabei presenciando várias outras convulsões. Por fim meu pai conseguiu que ela fosse incluída de volta no nosso plano de saúde, que era bem melhor que o dela, e foi providenciado um transporte aéreo pra um hospital de Salvador. 

 A última vez que eu vi a minha mãe foi quando ela estava na maca, prestes a embarcar. Ela estava consciente, e eu acho que eu segurei na sua mão, ou dei um beijo no rosto, não consigo me lembrar. Mas eu disse pra ela que ia ficar tudo bem, o que eu ainda pensava ser verdade.

Em Salvador ela melhorou mais um pouco e falou com a gente por telefone. Eu sei que esse texto tá cheio de últimas vezes, mas essa é a última última. Foi a última vez que conversamos, a última vez em que ouvi a voz dela, cujo som eu já estou começando a esquecer.

Conversamos sobre Thaís ter passado de ano, e mais outras coisas felizes. Eu tentava parecer tão feliz que devia estar soando meio maníaca. Não nos despedimos. Ela começou a delirar um pouco durante a ligação e a minha tia, que estava com ela, achou melhor desligar.

Eu, meu pai e Thaís fomos pra Salvador de carro no dia seguinte, mas chegamos tarde demais pra visitas. O resto da família já estava lá. No dia seguinte, que era 31 de dezembro, meu pai e meu tio foram ver o estado dela logo de manhã. Eu não cheguei a ir pro hospital. Quando meu tio voltou, e eu vi o rosto dele, eu já sabia que não seria preciso.

O nosso apartamento em Salvador estava cheio de gente da família, mas eu não lembro da reação dos outros. Eu chorei muito e abracei meu pai. Thaís não chorou nada, ficou só num canto, olhando estranho pra gente. 

E aí eu me lembro que todo mundo sumiu, e eu, meu pai e Thaís fomos almoçar num shopping, e a comida estava fria, e a gente conversava de qualquer outra coisa que não o assunto principal. Comemos casquinhas no McDonalds e eu comprei um dvd de um filme que eu gostava muito e estava na promoção nas Americanas.

Parecia um dia comum, mas um dia em que a gente se arrastava ao invés de andar, como naquelas cenas iniciais de Melancolia.

E eu acho que já escrevi demais. Acabei já falando um pouco de como foi esse momento de luto em dois textos do blog: O estranho mundo de quem já perdeu a mãe e Como realmente ajudar alguém em luto.

Eu só queria que a minha mãe soubesse que hoje eu sou mais legal do que quando ela me conheceu. E que eu queria poder agradecer pela chance de ter tido ao meu lado, e por tantos anos, uma pessoa tão incrível quanto ela.

Mas como diz a minha psicóloga, nós carregamos os nossos pais pra sempre, porque nós somos o resultado dos nossos pais. Quem sabe ela tenha razão.

          

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                                                       ***

Já me perguntaram por que eu escrevo textos diferentes em três lugares diferentes, no blog, no Medium e aqui nessa newsletter. A resposta mais simples é porque eu sou doida mesmo. A mais elaborada é que cada um desses lugares tem um estilo diferente.

Aqui eu escrevo textões emendados uns no outros sobre qualquer coisa que passe na minha cabeça. No blog eu escrevo uns textos mais arrumadinhos, com começo meio e fim, que em geral eu vou polindo ao longo dos dias.

Mas o meu lugar favorito de escrever é mesmo o Medium. Não sei o que acontece, mas minha mente sempre flui muito melhor por lá. Acho que é aquele branco todo, não sei. Pra mim não é coincidência que o meu texto com mais visitas em todos os tempos tenha aparecido justamente por lá.

Tudo isso pra dizer que eu estava ativa em outros lugares enquanto estava longe daqui.

No Medium eu escrevi esse texto aqui:

Ah, a vida é: (x) uma merda (x) uma festa


       

E pro blog foi esse:

Minha curta carreira de motorista  
   




                                                              ***



E o que aconteceu também enquanto eu estive longe daqui foi um crossover de autoras de newsletters. Essa aí à direita é a Carolina, que escreve a Viver é isso, Clarice? 
Talvez você até já assine a dela, porque estávamos na mesma lista da Aline Valek, mas se não, fica aí a dica pra você ;)
A gente trocou e-mails por um tempo, eu assinei a news dela primeiro, e fomos descobrindo coisas em comum. Como o fato de morarmos na mesma cidade, de ela ter feito letras inglês (o que eu estou cursando agora) e de termos quase a mesma idade. 
E o ápice da coincidência foi descobrir que a irmã dela já pegou matéria comigo na UFMG. Bem que dizem que BH é um ovo.
Passamos uma tarde bem bacana na terça passada, e eu acho que eu já conheci metade da família dela a essa altura :D 
E ainda dizem que a internet não nos traz nada de bom.




                                                         ***

E é isso, <<First Name>>. Te encontro de novo semana que vem?

         
 

Essa aí da foto é Camila, que sou eu.
A Coxia de Desconchavos sai a cada duas semanas, e você pode encontrar os arquivos antigos aqui. Se quiser conversar comigo (queira, queira) você pode responder a esse e-mail. E se um(a) amig(a/o) quiser assinar, passa esse link. Ah, e você também me acha nesses lugares aí embaixo:
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