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Uma mulher. Escrevendo. Seus problemas. E mudando a internet brasileira.
Ano 3, edição 54
           

Eu não estou deprimida. Eu preciso dizer, porque eu mesma preciso acreditar. Eu já estive deprimida antes, e embora fosse parecido, também foi diferente. Eu sei que eu não estou agora, usando a razão eu sei que eu não estou.

Eu estou armada com remédios até os dentes. Um deles é um antidepressivo, que eu tomo pra dor, mas ele também me deixa tranquila de pensar que eu estou protegida contra a depressão. Eu faço exercícios, eu faço diário, eu tenho alegrias de vez em quando.

Alegrias, não alergias, esses devem ser os únicos problemas de saúde que eu nunca tive.

Não é depressão, é só tristeza mesmo, com cansaço e uma certa preguiça de viver. O que não é o mesmo que não querer viver, porque eu até quero. Acho essa minha vida muito bosta, mas é a única que eu tenho.

E esse mundo é o único que tem bolo de chocolate fofinho com calda quente de chocolate e pedacinhos de chocolate por cima, então vai ele mesmo.

Eu sinto raiva, muita, quase todos os dias. Aí ela passa e volta com coisas muito pequenas, e eu tenho que me segurar pra não dizer o que não vale a pena. E eu me sinto péssima, porque eu gosto de bancar a pessoa sofrida evoluída que encontrou o sentido da vida, mas às vezes eu volto pro começo do jogo como se não tivesse passado pelo tabuleiro inteiro.

Eu não aguento mais superar coisas. Doenças minhas, doenças alheias, traumas do passado, decepções com a família. Acho que até a Fênix enche o saco de ficar ressurgindo das cinzas o tempo todo.

Se eu fosse Sísifo eu até continuaria levando a pedra até o penhasco pra ela cair e eu continuar empurrando pra ela cair de novo. Castigo dos deuses é castigo dos deuses, que jeito. Mas antes eu iria chutar essa pedra, ah se iria. Quebraria meu pé, mas a pedra iria ver só uma coisa.

Pobre pedra, desculpa pedra, eu sei que não tem nada a ver com você. Não deve ser legal mesmo ser empurrada pra cair pelo resto da eternidade até Hércules chegar pro resgate.

O que aconteceu com a pedra depois que Sísifo foi salvo? Ninguém se lembra da pedra. Era a mesma pedra ou eram pedras diferentes? Eu preciso dessa informação pra continuar me importando com essa história.

Mas enfim, Sísifo tá lá, na eternidade do mito, e eu tô aqui ainda.

Eu queria que as pessoas parassem de falar, e que não existissem mais notícias. Que ninguém mais fizesse chamadas de voz no celular, nem me ligasse, porque eu fico só esperando a próxima tragédia. Por um mundo só com mensagens de texto.

A gente podia olhar pras pessoas e aparecer escrito embaixo o que elas querem dizer, com a explicação do tom de voz que elas estão usando. Como naquelas legendas pra deficiente auditivo, e aí eu não precisaria interpretar mais nada e nem sofrer pelo que eu achei que foi agressão e pode nem ter sido.

Eu queria ter mais pessoas, mas ao mesmo tempo as pessoas me cansam. Menos as pessoas dos podcasts que eu ouço, essas podem continuar falando, principalmente a Ellen Hendriksen do Savvy Psychologist, que mulher maravilhosa.

Eu queria tanto poder fazer terapia com ela, mas por mensagem de texto também. Aí eu continuaria ouvindo o podcast e a gente trocaria emojis no whatsapp.

Eu desisti da minha psicóloga porque cheguei num ponto de só concordar com ela por educação e preguiça de argumentar. Minha claustrofobia é porque eu "peguei" do meu pai? Claro, por que não? E Freud sempre tem uma coisa confortante e maluca pra dizer, aquele velho pirado.

Não me entenda mal, a terapia me ajudou demais, e sem ela eu nem teria sobrevivido a 2015, mas pra mim já deu.

Eu me sinto melhor lendo sobre terapias. Acho que é aquele problema de quando você decifra o segredo do truque de mágica. É difícil voltar a olhar do mesmo jeito, fingir que você não sabe o que a pessoa está fazendo.

Acho que o Terra Samba estava muito correto quando disse lá nos anos 90 que "filosofia é a sua terapia, ficar na dela, não gosta de agonia". Acho que foi muito profético, queria ter prestado atenção antes.

Filosofia é sim a minha terapia. Já falei aqui do amor que tenho por Montaigne, e aprendo sempre com todos os outros. Queria ter mais dos estoicos em mim, naquele lance de que o sofrimento só existe enquanto você percebe como sofrimento.

Eu queria que esse fosse o meu super poder, ser estoica.

Eu tenho um super poder que às vezes é legal, mas às vezes é meio frustrante, que é o de fazer humor em qualquer situação, sempre. É mais forte que eu, sai antes que eu pense, e nem sempre me faz sentir melhor, apesar de as pessoas acharem assim.

Acho que muita gente não me leva a sério porque eu sou engraçada, mas fazer piada não quer dizer que eu não esteja sofrendo. 

É meio como na série Crazy Ex Girlfriend, a fonte desse gif aí de cima. Rebecca, a personagem principal, tem muitos problemas. Todo mundo sabe que ela tem, a série não esconde isso, mas são tantos números musicais, e cores, e humor que muita gente acaba enganada e esquece o tom sombrio que é a base de tudo.

E agora que a história teve uns episódios mais dramáticos teve gente reclamando. Porque finalmente colocaram as cartas na mesa e fizeram Rebecca parar de se esconder. Ela continua cantando, e usando roupas coloridas, mas agora finalmente o "crazy" do título foi explicado.

                   


Essa série é maravilhosa, a melhor comédia que eu vejo desde Community. As duas primeiras temporadas estão na Netflix, só avisando.

Eu poderia continuar aqui reclamando e reclamando, mas é pra isso que eu tenho diário. E eu estou vendo seus dedos procurando o botão pra deixar de seguir essa newsletter.

Fica lá embaixo, parça.

Mas antes disso, deixa eu só pedir desculpas às pessoas cujos e-mails eu não respondi. Desculpa gente, agora eu tenho vergonha de escrever alguma coisa e ficar muito na cara o quão vacilona eu sou.

E a Coxia de Desconchavos bateu recorde de maior tempo sem publicação, quase dois meses. Nem na pior das piores épocas isso tinha acontecido.

Mas enfim, já foi. Nesse intervalo de tempo eu escrevi lá no Medium, sobre essas dores que nunca vão embora de verdade e vão acabar me enlouquecendo.



Conheça fibromialgia, quando a dor é todo dia 

É isso.
Agora acabou.
Paz aí.



Essa aí da foto é Camila, que sou eu.
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