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Ele morreu faz muito tempo
Dá pra ver no navegador também
Uma mulher. Escrevendo. Seus problemas. E mudando a internet brasileira.
Ano 3, edição 52


Eu escrevo essa newsletter há dois anos. Talvez você também escreva uma, ou só assine várias mesmo, ficando até sem saber qual é qual. Talvez você nem se lembre de ter assinado essa aqui, e aí eu só peço uma chancezinha de te conquistar. Não vá embora ainda!

Faz uns anos que as newsletter ficaram na moda, mais ou menos na época em que os blogs meio que saíram de moda, e parece que tudo isso teve a ver com o o fim do Google Reader, que eu nunca usei, mas enfim.

Os textos da newsletter pessoal, como essa que vos mando, acabaram ganhando um estilo próprio. Estilo meio emprestado dos blogs, é verdade, só que mais  intimista ainda, porque as palavras chegam no escondidinho da sua caixa de e-mails, naquele lugar querido, porém maculado diariamente por spams e confirmações de pagamento.

E eu não sei você, mas eu fico muito feliz de receber amor e de saber da vida de outra pessoa que tirou um tanto do seu tempo pra escrever.

As newsletter contam histórias, falam de muita coisa, são meio inventário do que nos interessa e nos preocupa. Mostram o que a gente pensa, e como nos inserimos nesse universo de assuntos que parecem nos sobrecarregar às vezes.

E por isso a escrita sai quase sem rumo, no ritmo do pensamento. Eu tento polir o quanto eu posso, mas acho que existe um limite, e estruturar demais seria trair o propósito do veículo. E se eu quero escrever pra dar um jeito na bagunça da minha cabeça, alguma bagunça vai acabar aparecendo no texto também.



Um dia, há cerca de 500 anos, um nobre francês também resolveu escrever o que lhe ocorria. Na verdade a sua intenção original nem era essa, era só a de ler e descansar, depois de anos trabalhando como juiz (trabalhar não era bem a palavra, ele não ganhava dinheiro com isso, só exercia uma função) mas ele logo descobriu que ficar sem propósito não era boa coisa.

E quando esse nobre escreveu e publicou, ah, ele acabou revolucionando o pensamento ocidental, gerando um estilo que segue influente até hoje. E olha que ele só teve um livro, que foi feito, refeito, e teve acréscimos ao longo de vinte anos.

Eu estou falando de Michel de Montaigne e de Os Ensaios. Se hoje a gente pode escrever desse jeito, em primeira pessoa, contando nossa experiência ao mesmo tempo em que falamos dos assuntos que nos interessam, devemos muito àquele senhorzinho renascentista.

Montaigne nasceu em berço de ouro, sua família era de origem burguesa, mas seu pai havia conseguido comprar um título de nobre. Esse pai também era muito doido, ou muito visionário, porque queria que o menino Michel tivesse latim como sua língua materna. Pra isso ele contratou um instrutor que nem falava francês, e orientou todo mundo, até os empregados, a só falar nessa língua morta.

E você aí se escandalizando com a Sasha, que foi alfabetizada em inglês.

Michelzinho se tornou um jovem muito esperto, um rato de biblioteca. Naquele tempo tudo que era importante era publicado em latim, e nosso amigo já tinha essa vantagem linguística. Ele também era fera no grego. 

Voltemos à aposentadoria do nosso herói. Isso foi tão importante que ele fez até uma placa pra marcar o momento. Montaigne gostava dessas solenidades, e se você tem dinheiro pra essas coisas, acho justo. Ele tinha só 38 anos, mas sei lá, isso devia ser muita idade pro povo dos 1500.


"Ultimamente, que me recolhi em casa decidido tanto quanto puder a não me meter em outra coisa e passar em repouso, e à parte, este pouco de vida que me resta, pareceu-me não poder fazer maior favor a meu espírito do que deixá-lo em plena ociosidade, a entreter-se consigo mesmo, parar e sossegar: o que esperava que ele pudesse doravante fazer mais facilmente, tendo se tornado com o tempo mais ponderado e mais maduro.
Mas descubro que, ao contrário, agindo como um cavalo fugido, ele dá cem vezes mais livre curso a si mesmo do que daria a outros, e engendra-me em tantas quimeras e monstros fantásticos, uns sobre os outros, sem ordem e sem propósito, que para contemplar à vontade sua inépcia e sua estranheza comecei a assentá-los num rol, esperando, com o tempo, que ele se envergonhe de si mesmo"

(Sobre a ociosidade, Livro I, Capítulo VIII, Os Ensaios)

Ô colega Montaigne, eu super te entendo. Quem nunca teve aquelas ilusões de férias maravilhosas só olhando pra cima pra acabar morrendo de tédio e mais infeliz do que se fosse obrigada a fazer alguma coisa? A gente sabe que mente desocupada só pensa no que não presta, mas a gente segue se iludindo.

Eu não escolhi a ociosidade, fui empurrada pra ela depois que tudo na minha vida deu errado. E foi assim que eu resolvi escrever, primeiro num blog sobre cinema, depois em outro blog, e mais outro blog, até vir parar aqui nessa newsletter, que eu só não digo que são a minha versão de Os Ensaios porque eu sou muito modesta.

E falando em "quimeras e monstros fantásticos", nem te conto como tava a minha cabeça quando comecei a escrever a Coxia de Desconchavos. Meu pai estava num hospital psiquiátrico, eu me sentia sozinha e traída, achando que nem existiria vida ainda que valesse a pena viver. E eu fui salva porque eu escrevia, mesmo que não escrevesse sobre isso naquele momento.

Montaigne também tinha as suas desgraças na vida, porque ser rico não te salva de tudo, ainda mais numa época anterior a antibióticos e banhos regulares. Ele teve seis filhos, mas só uma filha sobreviveu aos primeiros anos. O melhor amigo dele, o parça, brother Étienne de La Boétie acabou morrendo de peste aos 32 anos. E o próprio Montaigne sofria muito com pedras nos rins.

Daí que Os Ensaios acabam tendo muitas referências a doença, sofrimento e morte. Eram temas frequentes na filosofia, é verdade, e Montaigne seguiu na tradição dos céticos e dos estóicos, que falavam demais disso. Mas a escrita tinha muito de experiência pessoal também, coisa que era novidade naquele tempo.


"Foi um humor melancólico, e por conseguinte um humor muito oposto à minha compleição natural, produzido pela tristeza e pela solidão em que havia alguns anos me atirara, que me pôs primeiramente na cabeça esse desvario de me meter a escrever. E depois, encontrando-me inteiramente desprovido e vazio de qualquer outra matéria a tratar, apresentei eu mesmo a mim como argumento e como assunto."
(Sobre a afeição dos pais pelos filhos, grifos meus)

Até a época de Montaigne quem escrevia coisa séria (filosofia, poesia, ciências e etc) não se colocava no texto. E quando o escritor falava de si e da sua vida, era  pra pregar, pra se colocar como exemplo, pra se impor como autoridade. Era o que fazia Santo Agostinho em suas Confissões.

Mas Montaigne não, ele falava de tudo um pouco, mas era sempre numa posição de quem não tem a palavra final. Por isso ele chamou seus textos de ensaios, que vêm do francês essayer, tentar. Mesmo que tivessem muito de filosofia, Montaigne não considerava que estava escrevendo tratados filosóficos. A proposta dele era a de "pintar a si mesmo", usar ele próprio como material.

Vê se não é assim que escrevemos as nossas newsletters?

Quando a gente lê Montaigne a sensação é a de estar muito perto dele. Ele diz o que nós pensamos, ele é o amigo que nos manda mensagens atrasadas em muitos séculos mas ainda verdadeiras. Dá vontade de passar lá no chatêau dele e conversar muito entre um gole e outro de vinho Bordeaux (ele foi prefeito na cidade de mesmo nome).

Montaigne escrevia pra ser acessível. Ele publicou em francês mesmo (ao invés de em latim), usava humor, contava histórias e ia mudando de um assunto pra outro sem se propor a resolver em definitivo questão nenhuma. Ao mesmo tempo em a sua escrita caprichada conquistou logo um lugar pra ele nos clássicos da literatura francesa.

Eu considero Montaigne o meu mentor intelectual, o exemplo em que eu me inspiro pra escrever. Ainda mais agora que eu estou cursando uma disciplina sobre ele na filosofia, e tenho mais estímulo ainda pra destrinchar os ensaios desse homem. Até passei a dizer que o que eu escrevo são ensaios também.

E considerando que hoje é dia dos pais, faço aqui uma homenagem ao meu outro pai, o meu pai intelectual, aquele que nem fazia ideia de que a sua herança iria me alcançar. Mesmo que ele considerasse seus escritos também como seus filhos.


"Pois o que geramos pela alma, os partos de nosso espírito, de nosso coração e de nosso saber são produtos de uma parte mais nobre que a corporal e não mais nossos"
(Sobre a afeição dos pais pelos filhos)

Quem sabe eu não possa sonhar com uma descendência assim também?




***

E já que eu estou falando de Montaigne, e da tradição do ensaio e da escrita pessoal, aí vai uma avalanche de links relacionados:

Montaigne no Estadão

Montaigne na Revista Cult (que faz menção à minha prof, Telma Birchal)

E em inglês:

História e definição do gênero ensaio

Virginia Woolf e o ensaio moderno

Susan Sontag, ensaísta e muito mais


***

Parece que tão rápido quanto apareceu, esse tal de Sarahah também sumiu. O que é uma pena, porque eu tava adorando esse negócio de receber mensagens anônimas, ainda mais que quase todas falavam da minha escrita mesmo. Tava uma delícia saber que as pessoas se sentiam próximas a mim pelos meus textos.

Se quiser me mandar mensagem lá, pode seguir em frente.

Aí eu resolvi compartilhar aqui com você as mensagens identificadas de carinho que eu recebo. Só as públicas, claro, que o que vem por e-mail continua lá escondido. 




O texto sobre o dia do casamento saiu no Medium


Agora não me lembro mais de qual texto sobre morte o Daniel tava falando, se esse ou esse.



Esse é o texto sobre a minha mãe 


Sobre o texto do casamento também, aquele do link lá de cima.

E como eu fico depois de ler essas coisas? Meio tonta de amor, e agradecida demais <3

Se você quiser me escrever também, pode ir lá no meu Facebook, ou no Twitter. Eu respondo rápido, juro.

Também dá pra responder a essa mensagem, como um e-mail normal. E compartilhar com as amigas, como um e-mail normal também.

Mas escreva, eu tô doida pra saber de você.


***

Hoje é dia dos pais, e eu nem falei do meu pai. Porque eu falo dele em quase todas as outras edições, e na minha publicação no Medium. Ó alguns links aqui:

Se amar é doer

Lar, onde meu pai está

Eu, meu pai e o Alzheimer entre nós


Meu pai comigo


Com a minha irmã, Thaís


E eu e ele cantando Terezinha de Jesus semana passada <3



***

E agora é fim, mas você não vai me deixar sozinha esse tempo todo até a próxima edição, né?

E se quiser ler fora do e-mail, e de repente até compartilhar por aí, quem sabe, a edição tá bem aqui na lista.

Até a próxima!



 
Essa aí da foto é Camila, que sou eu.
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