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*Por Jader Pires.

Pega a cena. O presidente da Câmara sorrindo, boca larga, aquela morosidade de sempre nos movimentos, enquanto o televisivo dominical exibe seus luxos, viagens a hotéis sete estrelas, visitas constantes a restaurantes de todas as notas, cifras e mais cifras. De ceroulas e com a luz apagada, ele assiste a tudo no escuro da sala, os óculos refletindo os pratos de milhares de dinheiros no brilho da televisão e ri, não à toa, mas sabendo que ele deu a volta em todo mundo a vida toda e, agora, é só mais uma noite em claro.

Ele e ela também não dormirão. A madrugada avança e eles continuam procurando telefones, cada um na sua casa, para destruir. O juiz já foi para casa e goza há horas de sua própria companhia. Prova ternos em frente ao espelho grande, enorme, dá mais um gole no copo e ajeita outro nó de gravata. Treina sua pose hercúlea e corre pro closed atrás de outra cor de camisa que combine melhor. Ele sonha com o dia que vai ser a vez dele.

Não só esse, mas muitos esperam sua vez. O que adora mandar a polícia sentar o cacete viajou para alguma cidade distante da capital pra poder, né, deixar a gentalha pra lá. Mas deixou ordens expressas pra polícia nenhuma bater. Não nesses, né. O vice lê em voz alta, no seu latim fluente, o próximo queixume que pretende tornar público. Se estamos numa merda de democracia, caralho, ele há de poder expressar seus desgostos. O segundo, não vice, o segundo mesmo, esse bate freneticamente o cartão de crédito contra o espelhinho. Mas ele nunca vai atrás, só manda alguém buscar. Esse não dorme tão cedo.

Hoje mais cedo um garoto apanhou por atravessar a avenida vestindo vermelho. Levou chutes, socos e pontapés. Um homem cuspiu na cara dele. Em casa, banho tomado, curativos feitos, deram-lhe um relaxante e fecharam a porta do quarto pra ver se ele descansa. No escuro, ele mantém o olho aberto.

Uma e quatro da manhã e eu sentei pra escrever este texto. Sono nenhum. Acho que hoje, ninguém aqui citado dorme.

Oi, gente! Jader falando aqui.

Suga. Sair na rua com receios dá uma fadiga estranha. Eu sei me cuidar bem, lidar com trombadinha, desviar de malandro, ir sempre pela sombra. Mas esses dias estão hostis demais, desconhecidos demais.

Eu não sei quem pode me xingar ou berrar com outra pessoa perto de mim. Eu não conheço bem essas pessoas que não costumam estar na rua. 

São só uns dias estranhos. Vai passar.
 

Ascensão, queda e evolução dos trailers (Risca Faca)

Uma matéria bem boa do Risca Faca sobre a história, importância e sobes e desces da arte de produzir um trailer.


"Segundo Polan, os trailers parecem ter começado por volta do meio da década de 1910 — é difícil precisar a data e definir qual foi o primeiro filme a usar esse tipo de vídeo curto para promover seu lançamento. No início, eram exibidos depois do filme no cinema, e foi daí que nasceu seu nome, já que um dos significados da palavra “trail”, em inglês, é vir em seguida. 

[....] Nos anos 1960, começaram a aparecer outras empresas, como a Kaleidoscope, mais dispostas a experimentar. Andrew J. Kuehn, que fundou a companhia em 1968, produziu mais de mil trailers, incluindo os de “Tubarão”, “E.T” e “Star Wars”. Seus trailers eram mais ágeis, ainda com a presença de narração — mas narradores com mais personalidade –, bastante música e que contavam a história por meio de cenas, abrindo mão dos letreiros explicativos."
 

AR, o disco novo de Almir Sater e Renato Teixeira

Eita que o disquinho é bem do bom. Se hoje já não adianta mais questionar se o sertanejo perdeu ou não a mão, cabe aos interessados dar atenção aos violeiros clássicos. 


AR foi gravado na serra da Cantareira e em Nashville, lá na gringa, e traz uma mistura bem foda da nossa música caipira com roupagem da música country americana.

Mas não se enganem, tudo é muito suave. Prevalece a eterna homenagem às pessoas do campo, à rotina matuta, às delícias roceiras: "Peixe frito, farinha e banana que o fim de semana é pra gente sonhar". 

 

A Cabeça do Santo (Socorro Acioli)

A Socorro Acioli conseguiu fazer uma das últimas (ou a última, desculpem a falta de apuração do escritor aqui, mas a precisão não vem ao caso aqui) oficinas de contos ministrada pelo Gabriel García Márquez ministrava em Cuba.  

Disso, do conto que ela desenvolveu nesse curso dado pelo nobel de literatura e autor do clássico maior Cem Anos de Solidão, saiu esse romance sobre o peregrino que vai morar na cabeça caída do santo no interior do sertão.

Uma delicinha de ler, passagens gostosas, aquele cheiro de agreste mágico no trocar de páginas, vale acompanhar a trajetória do homem que escuta vozes. 

 
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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