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*Por Jader Pires.

O incômodo compensava. Dividir uma cama de solteiro com a namorada tinha suas dificuldades e se movimentar livremente quando a luminosidade investia contra seu rosto no começo da manhã era, na certa, motivo para ganhar os já costumeiros beliscões na barriga ou na coxa. Mas ele sabia ser essa a única maneira de a coitadinha avisar um garotão de sono pesado que a velha máxima de dois corpos não ocuparem o mesmo lugar ao mesmo tempo era por demais verdadeira.

Só que o sexo era garantido e farto, dois adultos que até poucos meses eram crianças, mas a maioridade lhes deu aval para dirigir, beber e poder dormir na casa dela contanto que usassem camisinha. Estavam loucamente apaixonados e testavam todas as descobertas sexuais que viam juntos na Internet, além de passar as madrugadas tendo as melhores conversas de suas vidas até então. O que era um apertão ou dois quando se tinha a garota da sua vida nos braços?

O cheiro do bolo de canela e se instalou na casa todinha quando ele acordou. Esticou as pernas com modéstia para não ouvir reclamação, mas encontrou foi a cama vazia. O quarto em silêncio, a luz do banheiro apagada. Ela não tinha o hábito de sair sem ele. Na verdade, não se lembra nem de acordar alguma vez depois dela, que adorava preguiçar até a última gota de vadiagem na cama. Desceu as escadas curioso e encontrou sua namorada na cozinha, sentada e sem falar nada. Olhos baixos, mãos entre as pernas, os um pé escorado em cima do outro, os dois descalços. Na frente dela, a mesa do café da manhã posta e farta, com um lindo bolo de canela no centro, cortado a metade em fatias e fumegando aquele aroma ácido e picante.

Do outro lado da mesa, a avó dela.

Era uma senhorinha de olhar inocente e nariz roliço que adorava ir nos bailes da terceira idade para dançar e pintava os cabelos de roxo. A idade avançada parecia não acompanhar o pique dela, que zanzava a cidade inteirinha atrás de eventos e amigos. Mas, naquela manhã, ela estava lá para ser a velha conselheira.

“Mas por que vocês estão fazendo isso com vocês mesmos?”, interpelava em tom angustiado com as duas mãos secas e carquilhadas juntas como se orasse. “Bom dia, mocinho”, cumprimentou o garoto, “nós estávamos justamente esperando por você. “Sente-se aqui ao lado da minha netinha, sente-se”. E veio mais sermão.

“Vocês são tão novinhos, tão bonitos”. A vovó punha seu corpo para frente e para trás, quase que no embalo de uma cadeira de balanços imaginária. “No meu tempo a gente esperava mais, era preciso ter certeza absoluta do que se queria, se o amor era de verdade”. O casalzinho enamorado se entreolhou com pequeno descaso juvenil, uma altivez de quem crê no ultrapassar natural das gerações, como se a sexagenária na frente deles estava fadada às lembranças de um tempo que não mais acontece. Decidida, a menina ficou em pé e puxou o namorado pelo braço. “Vó, a senhora fala demais. Eu já disse que não adianta ficar enchendo o saco. A gente não usa mais essas regras bobas não. A gente vai se casar e pronto. A gente não quer tentar conhecer outras pessoas e nem transar com outras pessoas e nem experimentar o mundo lá fora e tudo o que ele tem a oferecer. Que nada, ficar esperando. A gente se ama! Vamos nos casar e acabou”.

Respondida, a vovó deu um longo suspiro e se recolheu. “Bom”, disse em voz baixinha, eu tentei.

Pessoal, olá! Jader falando.

Uma das coisas que mais gosto do meu processo de escrever é estar constantemente bebendo do sublime e da boca do lixo. 

Eu explico.

Eu fico observando o mundo, as coisas, as pessoas. Ouço situações, leio bastante, vejo cenas e tudo isso vai sendo capturado, anotado mentalmente, misturado e regurgitado em forma de texto, em formato de outras novas histórias. Quando um novo conto ou crônica está no jeito para eu efetivamente escrever, começa uma pequena batalha interna. Eu gosto muito de escrever de um jeito direto, simples, rasgado. Gosto do cru do que está sendo contado, me agrada o áspero, o soco. 

Mas minha literatura foi construída a base de muito Gabriel García Màrquez, muito Mia Couto. Logo, é certo que em determinado momento vai me bater a vontade de focar na forma, de deitar palavras deliciosas que, em conjunto, fazem lindas frases, dão doce poesia nessas pequenas prosas. E quando vou muito ao céu, me lembro que me dou com a galerinha de pegada John Fante, Dalton Trevisan. E fico feliz de voltar pra sarjeta.

Toda semana, um céu e um purgatório. E tá bom demais. 


No Japão, alunos limpam até banheiro da escola para aprender a valorizar patrimônio

"Enquanto no Brasil escolas que "obrigam" alunos a ajudar na limpeza das salas são denunciadas por pais e levantam debate sobre abuso, no Japão, atividades como varrer e passar pano no chão, lavar o banheiro e servir a merenda fazem parte da rotina escolar dos estudantes do ensino fundamental ao médio." 

Leiam essa matéria da BBC Brasil sobre as escolas japonesas que, além do banheiro, os alunos limpam também as classes e servem a merenda, os mais velhos para os mais novos.

A grande sacada disso tudo é perceber que limpar e servir não é visto como punição, mas parte do dia a dia, um trabalho ou serviço que deve ser feito, assim como o jornalista tem que publicar notícias e o arquiteto tem, sei lá, que subir prédios. Tem quem faça isso e tem quem precise limpar um estabelecimento ou servir mesas. Temos muitas questões históricas a serem resolvidas antes de chegar nessa naturalidade.
 

Sem receber nada, aposentada resenha 1.348 livros de loja on-line em mil dias 

Uma história contada por Rodolfo Viana, o homem atrás do Eduardo Cunha.  


"Mil dias depois, completos no dia 31 de outubro, a aposentada de 57 anos está no topo dos avaliadores do site brasileiro da empresa de varejo on-line, com 1.348 críticas — todas escritas sem pagamento envolvido." 

E você aí, feliz com seus dezoito livros lidos no ano. Mentira, ler dezoito livros num ano é bem bom.

 

De Gados e Homens (Ana Paula Maia) 

Um livro lançado em 2013 e com a pior capa que poderiam dar, mas um baita livro lançado em 2013.

De Gados e Homens conta o dia a dia em um abatedouro, aquele local onde os bichos que comemos são mortos, assassinados, abatidos. Não se trata de um livro em defesa do vegetarianismo, mas uma seca história de homens duros com uma vida dura que constantemente lidam com a dura realidade da morte.

Vai atrás.
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

Você pode comprar meu livro direto no site da editora ou nas livrarias!
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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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