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*Por Jader Pires.

De novo, o estômago. Sempre me foi o lugar das dores. Depois de uma noite das mais mal dormidas, lá me veio justo o bucho com penalizações. Doía à beça, primeiro as fincadas e depois o nó em fluxo constante. Duas horas em agonia e bater o martelo ficou fácil. Eu precisava ir para o hospital.

Era uma mistura de ódio e culpa. O carro, lá embaixo, com o alarme disparado há tanto tempo e eu na janela, curvado e imaginando todos os tipos de atrocidades que eu poderia cometer sem ser visto. Roguei pragas pesadas contra o veículo, seu dono e as próximas gerações dele e dos futuros donos. Pensei em descer, jogar um tijolo no parabrisas, e puxar todos os fios debaixo do volante e voltar a dormir. Imaginei-me de pijamas soltando o freio de mão e empurrando por dois metros, vendo-o atravessar sozinho a avenida pompeia abandonado à própria sorte de alguém dar no meio e partí-lo em dois ou vê-lo simplesmente cair pela ladeira da rua da frente e ouvir o estrondo lá embaixo. Lá de longe. Eu não me importava, naqueles pensamentos nefastos, se iria acertar o muro de algum casal de idosos com dificuldades financeiras, se atropelaria algum cachorro ou trabalhador cansado, alguém em cima de uma moto entregando a comida de alguém, se o carro era roubado e o dono estava inconsciente em algum lugar, necessitando de auxílio.

Naqueles minutos, o diabo soprava nos meus ouvidos e eu atendia suas demandas com louvor, construía caos, sofrimento e destruição na minha cabeça em prol do descanso merecido. Liguei para a polícia. Eu tinha todos os direitos de um tratamento digno. Daí a vida me trouxe de volta com minhas algias estomacais. Cada espasmo era como se meu corpo disparasse o alarme “você não é especial, você não é especial”. Na ida para o hospital, duas quadras de casa, vi duas viaturas chegando.

No hospital, as injeções não faziam efeito, os remédios não tiravam a dor. “Olha, se não parar de doer, você vai ter de ficar internado”, me disse o médico. Pedi para ficar um pouco no escuro e apagaram a luz. E foi no breu que ouvi uma voz de mulher: “Oi menino. Eu sou a enfermeira do turno agora e fiquei sabendo que você tá com dor de estômago faz um tempão, né. Olha, eu trouxe uma coisa aqui que eu faço em casa, é um remedinho de ervas. Acho que vai te fazer bem. Mas não pode falar pra ninguém porque pode me dar problema, mas é tudo natural aqui, ó. Mal não vai te fazer”.

Ela me tirou a dor com a mão. Dois minutos e eu não sentia mais nada, o corpo relaxado. O médico até me dispensou. Antes de sair, perguntei da enfermeira do turno. Queria lhe agradecer o amparo, a valência, o achego. O atendente do andar me disse: “Olha, eu deixo seu agradecimento aqui, mas ela teve uma emergência e não volta mais hoje. Parece que o carro dela disparou o alarme na rua e um guincho levou embora. Ela saiu apressada pra tentar resolver. Poxa, uma pena ela não estar aqui. Ela ia adorar falar com você. Se ao menos alguém tivesse avisado aqui em vez de fazer levar embora o carro dela. Tadinha”.

Minha dor de estômago voltou.

Obs.: Este conto surgiu depois do desabafo da edição anterior e vai fazer bem mais sentido se você souber o que aconteceu aqui.


 

Oi, gente! Jader falando aqui.

Essa semana foi aniversário da pequena e eu não podia dar menos atenção para o dia dela. 

Com isso, essa parte ficou bem express. Vocês me entendem =) 

Parabéns pra ela! Parabéns pra pequena.

Bora aqui pras dicas da semana. Só tem coisa linda e coisa fina.
 

Na América Latina, a desigualdade de classes está dividida por muros

O de Berlim ficou mais conhecido pela história da Segunda Guerra Mundial. Hoje sabemos que há, também, um outro que separa Israel de onde seria a Palestina e, se um futuro de trevas for o dos Estados Unidos, Trump poderia levantar mais um entre seu país e o México. 


A gente fica abismado pra caralho com essas coisas, né?

Pois aqui, na América Latina, isso é natural e cotidiano. Lima, Buenos Aires, Cidade do México, Rio de Janeiro. Apenas vejam esse vídeo e me digam o que acham no jader@jaderpires.com.br. 

 

Homem de verdade não foge de briga | É, tem Razão #2

Eu tô com uma coluna nova lá no PapodeHomem, gente! Ela vai correr junto com a Do Amor.
 

Enquanto que na Do Amor eu coloco o amor romântico no chão e piso um tiquinho pra gente não sofrer tanto nas nossas relações, nessa eu tento pegar as frases que ouvimos por aí que acabam por definir estruturas de masculinidade para desconstruí-las e histórias que mostram o quanto isso tudo pode ser ridículo.

Tá só na edição de número #2, então tá bem fresco pra vocês lerem e pitacar pra cacete. Leiam, vejam se está massa, se faz sentido, onde tô cagando feio. E vamo que vamo. 
 

Burn the Witch (Radiohead)

No final da semana passada o Radiohead, das minhas bandas favoritas, apagou tudo em suas redes sociais. No lugar da foto de capa no FB, foto de usuário no Twitter, uma imagem em branco. Todo o conteúdo deletado.
 

Era o começo da longa espera. A imprensa musical entrou em polvorosa com a brincadeira e o f5 nunca foi tão apertado por aí.

Hoje, terça (dia que tô montando essa parte da nossa newsletter), parte do mistério foi desvendado com o clipe da canção "Burn the Witch". Agora falta vir o álbum novo todo. 

 
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

Você pode comprar meu livro direto no site da editora ou nas livrarias!
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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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