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*Por Jader Pires.

Duas coisas ainda me são bem fortes na cabeça: Uma delas era a candeia, que iluminava oscilante e manchava a mesa com seu tom dourado. Era um amarelo forte enobrecendo o samba tocado pelos bambas das redondezas. A outra era a movimentação singela e poética da fumaça. O frio não atrapalhava a alegria, mas deixava a fumaça mais densa e, assim, a danada passeava com pompas pelo ar gelado, por entre as pessoas que iam e vinham deformando massas esbranquiçadas que bailavam elegantemente, ignorando tais transeuntes.

E essa era a mistura de cores daquela festa. A cerveja, dourada e protegida por uma fina capa branca de espuma passeava livremente, sedutora e cheia do dom de acalentar os corações mais ansiosos. É, o amor se manifesta das mais diversas formas e, naquelas mesas, tinha pra se dar e amor pra se vender. Amor pela gelada que deveria sempre completar a metade vazia do copo, o amor pela dançarina de vestido bordado de flor, amor pela música feita pelos que ainda haveriam de ser a velha guarda e amor pelo estilo de vida, pela maneira de se levá-la devagarzinho como ainda mandava a cartilha do malandro.

Mentira. Não havia cartilha. Não havia regras e, se olhasse bem, não havia nem malandro porque “malandro, que é malandro, não se apresenta”. Mas que o reduto era dos madraços, ah, isso era. E que mal havia nisso? Todo mundo ali, aproveitando uma noite com a cabeça tranquila, sabendo de cor e salteado que a vida bate, e bate sim, mas que ela também assopra. E assim se leva.

A cachaça e o ânimo já esquentavam a mesa quando se trocaram as duplas e começaram mais uma rodada de truco. O jogo que tinha apelido por ai de “jogo de ladrão”, numa época em que o violão era também coisa de vagabundo. E claro que tudo isso fazia risada na rodinha porque, diziam eles, “é até bom que se vê como jogo de gatuno, viu, assim só vem jogar quem tem as manhas memo. Eu é que não preciso de mané pra parceiro, né não”. No truco é onde o malandro exercita seu dom, é onde se deposita toda a prática do estudo do cotidiano. “No truco não tem blefe, tem malandragem, rapá”.

O dourado ganha intensidades bem interessantes quando cai em cheio no rosto infalível do “pé”, aquele que dá as cartas e confere destemido sua obra. Carta vai e carta vem, os olhos conferem com todos os escudos as táticas acertadas e os movimentos calculados erroneamente. A fumaça também passa despercebida pelas narinas aguçadas atrás da hesitação, da manilha escondida. O momento descontraído disfarça atenção máxima nuances. Sutilezas.

Mas é truco e, no truco, nada é feito seriamente. “Se fecha a fuça, amigo, aí tem”. Então o truco é jogado na atenção e na malemolência. E do gingado que surge a gritaria. Todo malandro sabe as regras e todo malandro sabe como quebrá-las.

— Truco!

— Cai dentro, marreco!

E os sons se misturam numa discussão infinita e com ares de ser algo pesado, mas tudo faz parte do ritual de se coletar mais e mais pontos. Em meio aos argumentos surgem risadas indescritíveis provando a tranquilidade daquela balburdia. Mais uma rodada emocionante. “Como que foi a rodada, meu chapa? E acha mesmo que isso importa? Ganhar no truco é ganhar no grito, mermão! Aprende a gritar que o tento vem!”

E com essa resposta, mais uma vez a malandragem se vestiu de branco e dourado e saiu por aí, dona de si.

Oi, gente! Jader falando aqui.

Como não dizer nada é também se posicionar, então eu falo pra ficar tudo do jeitinho certo. O de me posicionar pós massacre em Orlando.

Não ache, quando o assunto é homofobia, que o que se está falando é só da boca pra fora ou que se trata uma brincadeira ou então que está sendo verdadeiro por falar o que pensa.

Estamos vivendo um momento de conservadorismo e discursos de ódio. E esse comportamento não pode se transformar em "algo comum". Não é. Não deixe ser. Ou muito mais gente vai morrer por preconceito burro (que me perdoem a redundância).


Posicione-se. "Ah, mas isso foi um caso isolado de um extremista". Balela, gente. balela.

Não deixe a homofobia ser tida como uma atitude natural, choque de geração. Não deixe que insinuações, chacotas e falar violentas aconteçam de forma natural, coisa que homem deve falar. Não deixe o amor ser visto como algo errado. Não deixe. Não deixe.

1000 massacres com armas de fogo em 1260 dias. É assim que a crise com as armas nos Estados Unidos se parece (The Guardian) 

O ataque em Orlando foi o mais mortal nos Estados Unidos desde os atentados de onze de setembro.


Estou escrevendo essa parte da newsletter na segunda, então provavelmente muitas atualizações aparecerão durante a semana sobre o acontecido, mas, por hora, sabemos se tratar de um crime de ódio contra homossexuais. Não me venham com essa de ISIS que, por trás de qualquer desenrolar, é clara a motivação preconceituosa no ato. Imperdoável qualquer tentativa de aliviar esse fato, como tentou fazer a figura execrável Marco Feliciano.


Dito tudo isso, o The Guardian fez um infográfico bem visual que mostra que houveram mil ataques em pouco mais de 1200 dias nos Estados Unidos. Incrível visualizar mortos, feridos e, mais ainda, a quantidade de incidentes violentos por lá, praticamente algo do cotidiano, e muito muito distante dos números de qualquer outro país desenvolvido.

Vale lembrar que matamos com tiros muito mais que lá por aqui no Brasil.
 

Por que você vai se casar com a pessoa errada (Alain de Botton)

Em artigo publicado no The New York Times, o Alain de Botton conta porque o amor romântico vai te fazer casar com a pessoa errada. 


E tudo o que acontece quando o que mais evitamos a vida toda acontece, que é, claro, casar com a pessoa errada.

 

Sete a um foi pouco, e eu explico porquê

O melhor texto sobre o nosso futebol: "O tempo não para. O futebol não parou no tempo. A modernidade chegou e não podemos fugir dela! Não vivemos mais nos gloriosos tempos de 1994. Vivemos o hoje. 2016. Precisamos acordar!

Chuteira preta não ganha jogo. Camisa para dentro da calça? Zagueiro que não ri e tem nome que “impõe respeito”, como Odvan? Jogador sem selfies com língua para fora no Instagram… Adivinha? Não ganha jogo. O que ganha jogo é a maneira inteligente de pensar.

O futebol não é acaso. Não é totalmente sorte. Todo o planejamento é necessário, e estamos longe disso."

 
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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