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*Por Jader Pires.

Com olhos de ainda ontem, acordou e levantou bem as maçãs do rosto evitando, assim, a entrada de toda a luminosidade que vinha de fora do quarto. E que festa, a noite anterior agora lhe trazia a sensação de quilos a mais na cabeça e parecia ter chupado a corrente do portão com aquele gosto de ferrugem na língua.

Aniversariou e, como já havia se tornado costume, quase um princípio, chamou os amigos para comemorar a data em casa. Nada de bares e aquela coisa complicada de comanda junta e separada, nenhuma daquelas boates da noite, uma escuridão propícia para outros assuntos ilícitos e intransfiríveis, mas não para abraçar os bróders, jamais para ver a vida passando diante dos olhos. Esse tipo de afeto necessita de muita luz, e era tudo o que ela não desejava na manhã seguinte.

Empurrou o corpo para fora da cama decidida a bater a porta, mas ouviu um som áspero do lado de fora, um ralar de coisa, uma roçada conhecida, mas que ressoava como surpresa naquele contexto. Era para ser um dia de derrota, acordar tarde, mandar o namorado ir buscar na feira um litro de caldo de cana, única refeição possível até pelo menos cinco da tarde, se arrastar pela casa silenciosa até que o equilíbrio natural das coisas disponibilizasse ânimo para seguir, isso porque, quando se aproveita em demasia em determinado momento, vem o universo e toma de volta assim que possível, nem que seja à conta-gotas no domingo.

Mas em vez disso, escutava o vai e vem da vassoura pela sala e na varanda, o abrir e fechar da torneira na cozinha. Saiu do quarto e tropeçou num montinho de sujeira. Mais na frente, garrafas de cerveja long neck enfileiradas e dispostas dentro de uma grande caixa de palelão. Os pratos, que antes portavam cadavéricos salgadinhos que sobraram da festa agora relaxavam na água higienizada da pia. Pegou o celular em cima da mesa e constatou: ainda era domingo. O cara da empresa de arrumação que o prédio indica para quem precisa de diarista só viria na segunda-feira e por um segundo cogitou estar atrasada para o trabalho depois de varar o resto do final de semana ainda bêbada.

Podia acontecer.

Mas era só o namorado botando as coisas em ordem. Voltando os móveis no lugar, tirando o grudento do piso da varanda com sabão e esfregão. De bermuda e sem camiseta, suava bem para purificar aquele pós-festa. Claro que sua primeira reação foi perguntar ao companheiro o porquê da ajeitação, se foi cobrado de cada convidado justamente o mínimo rateio para o pagamento da limpeza. “Tô só tirando o grosso. E o cara que vem limpar aqui vai achar que a gente é o quê? Um bando de porco? Não senhora”. 

Ela botou os óculos escuros e foi à feira.

Pessoal, olá! Jader falando.

Depois de tudo, a volta. 

E sejam todos bem vindos novamente. A Meio-Fio se renova nesse sentido.

Tivemos o tiro inicial de umas quatro edições, cinco. Depois, um interlúdio por conta de distância. Então, para mim, agora que começa o nosso rolê. 

Isso porque teremos agora essa série de edições sem interrupções e mais próximos. Estou com projetos novos em andamento, coisas que envolvem novas plataformas, novas maneiras de contar histórias, e a boa e velha necessidade de escrever um novo livro. Vou contando tudo aos poucos nas próximas Meio-Fio e vamos conversando sobre essas ideias e quais possibilidades temos.

Queria também, daqui pra frente, pedir histórias. Já estamos em quase 2 mil pessoas conversando, imaginem só o tanto de bons causos vocês devem ter e eu que posso misturar tudo e montar novos contos e novas crônicas com ações mais diretas de vocês. 

Seria o maior prazer dessa minha vida. Me contem suas histórias. Sem medo, sem vergonha, sem filtro. Vamos conversar no jader@jaderpires.com.br.


At. Long. Last. ASAP (A$AP Rocky)

Que rapazinho esperto de flow bonito de ouvir.  

O disco é de maio, mas peguei com afinco para ouvir depois de ver DOPE, o filme que comentei na última Meio-Fio em que ele faz um dos personagens.

Desse, recomendo L$D (love, sex and dreams). Não se deixe levar pelos $$$ nos nomes, ter uma visão rasa logo de cara de se tratar de um jovenzinho ostentando no rap. O A$Ap vai além. Tá boa a safra de rap gringo, viu. Tá bem boa.
 

O Zen canalha de Steve Jobs (Eduardo Pinheiro) 

Uma história bem completa.  


O Eduardo Pinheiro disseca bem o Zen japonês e seus desdobramentos e atualizações até chegar na Califórnia e pegar de jeito meio mundo por lá, inclusive o cara que fundou a Apple.  

Uma ótima crítica ao movimento mindfulness e à meditação como produto:"Produzir mais, subir na vida, conseguir ficar feliz com o mundo pegando fogo ao redor. E meditar não para reconhecer a natureza da realidade, que é de profunda interdependência, mas apenas para não tomar remedinho e seguir destruindo o mundo com completa indiferença." 

 

O cara branco dessa foto 

Esse post em inglês é muito legal, publicado na Films for Action.

Esse artigo conta a história de Peter Norman, o australiano que figura nessa foto icônica em que os atletas Tommie Smith e John Carlos fizeram o histórico gesto em defesa dos direitos civis dos negros.

E que história.
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

Você pode comprar meu livro direto no site da editora ou nas livrarias!
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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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