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*Por Jader Pires

Quando a gente leva o músculo à exaustão, ocorre uma fadiga gradual das fibras musculares envolvidas nesse esforço ao ponto de o corpo não conseguir mais substituí-las. É nessa hora que a força falha e não se consegue mais executar o movimento imaginado. Ela tinha lido algo sobre isso uma semana e pouco antes, em um daqueles folhetos que vêm junto com as embalagens de suplemento alimentar que o namorado compra. Eles estão morando juntos há algumas semanas apenas, juntaram as escovas de dente pouco depois de saberem que ela estava grávida.

Mas, nesse momento, ela não consegue pensar onde ele está. Há poucos segundos era o que se repetia em sua cabeça em loop, “porra, cadê ele, porra cadê ele, aparece, porra”. Mas agora tudo o que ela consegue se lembrar era da merda de folheto explicando sobre o esmorecimento dos músculos depois do esforço profundo e contínuo. Era o que seus dedos estavam fazendo, lá, pendurada na janela do terceiro andar da casa de shows. Ouviu os tiros, viu a confusão instalada e correu. Pensou ser instinto de mãe, a necessidade de sair de lá sem traumas no ventre recém habitado. Subiu as escadas, achou uma saleta e fechou a porta. Mais barulho, gritos, estampidos. Sabia que não seria aquele laminado de madeira que impediria a passagem de quem quer que usasse de um mínimo de violência contra ela. Viu a janela e saiu.

Não tinha como subir, nenhuma ferramenta lhe daria tal acesso. Pendurou-se no intuito de saltar, mas não podia pular lá embaixo porque levava outra pessoa dentro de si. Lá, suspensa no terceiro andar, agarrada apenas com os dedos no parapeito, sentiu o cansaço imediato das falanges, o amolecer do mindinho, primeiro a não suportar. Embaixo estava o inferno. Pessoas corrriam ensanguentadas, pessoas carregavam outras pessoas feridas. Rastros, gemidos de angústia, o desespero. Foi quando ela percebeu que não queria mais descer, mas era tarde e seus braços não tinham força para tornar a subir pela janela. Lembrou-se do informativo sobre musculação justamente nesse momento. Tinha a certeza que iria cair. Apelou para a única afirmação que julgou poder salvá-la e salvar aquela outra vida ainda em formação. “Estou grávida”, gritou e tornou a repetir em vol alta e mais uma vez.

Gritou e gritou, pensou estar há horas pendurada, mas foram alguns segundos que nem você e nem eu jamais saberemos do impacto. Sentiu no pulso os dedos de outra pessoa, esses com força o suficiente para puxá-la de volta para dentro. Não eram os assassinos, não eram os terroristas.

Ela estava salva. Seu bebê também.

Obs.: essa história foi escrita inspirada na cena da francesa grávida nos recentes ataques dos terroristas do intitulado Estado Islâmico ao Bataclan, em Paris. Nao se trata de um escrito noticioso e nem verdadeiro, mas apenas um olhar completamente ficcional do drama gravado em vídeo e amplamente divulgado. Qualquer semelhança com o fato real é mera coincidência.
 
Pessoal, olá! Jader falando.

Não sei se todos sabem, mas essa sexta-feira tem feriado em São Paulo, com o dia da consciência negra, um dia muito importante para todos nós. 


Com isso, pra não ficar naquela bad vibe de mandar Meio-Fio bem no feriado, por mais que seja um dia útil quase no país todo, resolvi adiantar em um dia a nossa Meio-Fio #16.

Também tem o fato de que, quanto mais perto da sexta-feira passada esse texto for lido, mais interessante ele se tornará. A ideia é muito humanizar o ocorrido na última semana, não pensando, lá em cima, em geopolítica ou Estados ou qualquer outra coisa, mas apenas no fator humano. A humanização é muito importante nesses eventos para que saibamos entender um pouco mais a gravidade de atuações violentas como essa.

Eu poderia, sim, escrever sobre alguém em perigo de violência no Líbano ou Nigéria ou aqui na periferia de São Paulo. O grande lance é a facilidade que muita gente pode ter de rapidamente se colocar no lugar de uma pessoa em uma casa de show em um país ocidental do que na pele de alguém em um país de cultura diferente num local de pouca familiaridade. Então, não vejam o conto acima como seletivo, mas o que eu poderia fazer de mais próximo para humanizar uma situação de violência pra gente tentar entender melhor e, daí sim, percorrer esses caminhos da empatia com quem está no norte da África, sofrendo - agora sim - com a política e geopolítica no Oriente Médio ou com o massacre do dia a dia aqui nas periferias latinas e brasileiras.

E o coração que sangra todos os dias.

 

A Síria e o intitulado Estado Islâmico (ISIS): Guia do que está acontecendo

O intitulado Estado Islâmico não é um Estado de fato e não pode ser confundido com o islamismo. É muito importante eu começar este texto dessa forma para que não haja confusão de informações. 

Não há um país ou território desse grupo para ser tido como Estado - "forma organizada de um povo, que mora no mesmo território e obedece às mesmas leis", segundo o Dicionário Criativo - e não representa, mas nem de longe, a fé da religião islâmica. 


Nos últimos dias, com a potência e velocidade dos acontecimentos trágicos de Paris, os olhos do mundo se voltaram, outra vez, para o ISIS, Estado Islâmico do Iraque e Levante, organização terrorista que tem bases no Oriente médio. Cabe, em meio a tanta informação, começarmos do começo. Nesse link, um pouco de luz.

 


AntiCast Urgente #06 – Atentados em Paris, ISIS e Islã

"Ivan Mizanzuk conversou via Hangout com o historiador Filipe Figueiredo, do site Xadrez Verbal, e os teólogos Alexandre Milhoranza e Alexander Stahlhoefer, do site BiboTalk.

A conversa foi gravada dois dias após os ataques de Paris, no domingo, dia 15 de Novembro de 2015, e contou com uma audiência de cerca de 400 pessoas que acompanharam ao vivo pelo YouTube e mandavam perguntas via Twitter. Foram quase 3 horas de conversa em que buscamos explicar as várias motivações políticas que constituem o ISIS, tentando evidenciar que suas ações, apesar de serem justificadas pelo Wahabismo, uma vertente do pensamento islâmico, não constituem e tampouco representam a religião muçulmana.

Muito mais que um House, a trama conta a rotina do hospital The Knickerbocker na Nova Iorque em 1901. Lembrem-se que estamos falando de uma época em que a penicilina ainda não havia sido descoberta e a transfusão de sangue era feita com roldanas movidas à mão. Pare então pra pensar o nipe das cirurgias que eram feitas naqueles tempos.

O debate e análise sobre o ISIS deve se dar pelo campo político, não no religioso. É esta a nossa postura que permeará toda a conversa."
 


Como ajudar as vítimas do crime ambiental de Mariana-MG

Locais que agregam postos de coleta de doações, conta bancária da cidade e como acolher alguém desabrigado. 

Porque é importante demais para ser deixado de lado. Leiam, ajudem e passem adiante


Desculpem a enxurrada de links não culturais ou que fogem mais ao usual de indicar leituras ou filme e músicas, mas essa foi uma semana bem analítica e reflexiva dessas movimentações tensas aqui e no mundo. Particularmente me alarmou o desencontro de informações e, posteriormente, a briga na Internet pela empatia alheia, pela caridade alheia. Essa semana foi uma tentativa de botar coisas de volta nos trilhos.

 
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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