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*Por Jader Pires.

Olhava para o alto e via o nada. Ficou divagando alguns minutos sobre a teoria de conseguir ver todo o seu quarto, mesmo no escuro. A ausência de luz não o impedia de ver a cômoda, a escrivaninha e até as contas acumuladas em cima dela (na ordem de importância, uma em cima da outra). Os braços, logo abaixo cabeça servindo de apoio, começaram a ficar dormentes e ele decidiu levantar-se para fumar. Acendeu a luz e vislumbrou cada objeto que estava a imaginar quando a luz estava apagada e soltou um leve sorriso de satisfação que logo se desfez com o pensamento de que a ideia de ficar contente com uma teoria tão dispensável era desespero demais.

Sentou-se na ponta da cama e olhou para os pés fincados no chão e a geometria que fazia o vão entre eles. Pegou o maço que estava na cômoda e acendeu um cigarro. A fumaça era densa e fazia questão e ir diretamente na direção de seus olhos já avermelhados de cansaço. Mas o sono, que era a sensação de maior desejo, não se via em lugar algum.

Havia dias que não conseguia dormir, atabalhoado de precipitações efêmeras, mas que se alternavam com ivejável disciplina em sua mente. Sabia que algo lhe faltava, mas não sabia o que, ou sabia e ficava a negar a verdade plena bem diante de seus olhos caídos em estafa. Sua falta de entusiasmo fizeram com que as confusões da vida passassem sem maiores arroubos. Um calo se formara em seu coração.

Resolveu que ia se levantar e se levantou mesmo, vestindo as calças que estavam penduradas na alça do armário já com um cinto estrategicamente passado ao redor da cintura (na verdade não se trata de estratégia, mas sim de preguiça de tirar o cinto da calça) e conferindo as poucas moedas que foram esquecidas no bolso. Não trocou a camiseta que estava vestindo no momento da vontade frustrada de dormir e esboçou uma tentativa de arrumar com as mãos o cabelo fino e embaraçado. Abriu a porta do apartamento e ficou olhando o corredor escuro por alguns segundos, apontando com os olhos o vaso de plantas que ficava entre os elevadores, de serviço à esquerda e social à direita. Indicou empurrando o ar com o nariz a porta do vizinho da frente, dos dois à direita, mirou a janelinha no alto à esquerda (mas essa era fácil porque estava iluminada pela luz da rua) e parou pra pensar se deveria sair mesmo. Botou na cabeça que tinha de comprar mais cigarros e trancou a porta do apartamento com uma mão enquanto acendia a luz do corredor com a outra.

Ao chegar na rua, sentiu o sereno pousar em seus cabelos já desarrumados com o vento bem gelado. Enfiou as mãos no bolso e lamentou o fato de não ter pegado uma blusa. Andou duas quadras e atravessou para entrar na avenida que certamente haveria de ter uma padaria aberta. Ao cruzar a rua, parou para observar as gotas que caiam tranquilas e brilhantes quando atravessavam em frente à lâmpada do poste. Essas gotas eram como verdades inundando toda sua trajetória de dúvidas e desencontros com a razão. Imaginou, naquele momento, que como não amava a si mesmo, por consequência não amava a ninguém. Não tinha amor pela pessoa que era e muito menos tinha a perspectiva de amar a pessoa que poderia ser.

Após a breve epifania, seus olhos já não estavam mais cansados. Estavam arregalados de contentamento e focados no próximo passo a ser tomado. Ele se virou calmamente, ainda com as mãos no bolso, e adentrou na pista molhada da avenida. Seus olhos não viram mais nada. Foram os ouvidos que trabalharam para identificar o barulho de uma buzina que crescia alertando a chegada do inevitável. Deslumbrou-se com o silêncio que precedeu a chegada da santa. Abriu os braços em busca de redenção e foi acalentado pelo beijo da imaculada. Seus olhos se encheram de lágrimas com o gesto singelo e sincero da agônica persona.

Um beijo de despedida em quem nunca se apaixonou.

Pessoal, olá! Jader falando.

Tive uma conversa dia desses com uma galera pra lá de foda e me vi numa situação interessante. 

Essas pessoas programam suas vidas. Digo, uma delas era mais nova que eu e diz ter as coisas da vida planejadas, que tem ideia de sair de casa com tal idade, juntar os panos com um cara legal com a idiade tal, ter três filhos com x, y e z anos. 


Nada demais, todos nós sabemos que a vida vai fazer de tudo pra esses planos darem errado (e não tem nada de mal nisso, gente), mas me intrigou o fato de eu nunca ter tido essa gana de planejar ou achar que poderia ser de determinada maneira a minha trajetória.

Daí fiquei naquela costumeira curiosidade.

Vocês possuem esses anseios? Pessoal, profissional, se imaginam comprando casa ou tendo determinado cargo ou então morando naquele país ou tendo feito tal viagem?

jader@jaderpires.com.br. Bora bater um papo?.  


Como fotografar o homem mais assustador do mundo

Em 2007, o atual presidente russo, Vladimir Putin, foi eleito a personalidade do ano  pela revista Time.

A foto da ocasião foi feita pelo Platon, que relatou nesse vídeo muito massa feito pelo Huffington Post como foi o processo, que envolve o amor dos dois pelos beatles, e o efeito posterior da fotografia, utilizada, hoje em dia, em diversos protestos contra o autoritarismo do governo russo.

E fiquem de olho. Esse Putin ainda vai dar um trabalho que as pessoas até já imaginam.
 

Quem é a população sem acesso à internet 

Se você recebeu normalmente a Meio-Fio hoje e está lendo a nossa deliciosa newsletter do seu computador, smartphone ou tablet, que sorte a nossa, amiguinho. 


Metade da galera aqui nesse Brasil de meu deus ainda não utiliza a Internet como poderia. 

O Nexo publicou gráficos que analisam dados de escolaridade, renda, região, idade e raça para traçar o retrato da população que não acessa a rede no Brasil.

Que sorte a nossa.

 

Zootopia (Disney)

Ah, cara, eu queria ter demorado menos pra ter assistido.

Zootopia é a última grande animação da Disney e caiu no colo muito bem. Eles dificilmente erram nesse quesito de diversão, né.

Tá tudo lá, pra gente rachar o bico, se entreter e ainda, de quebra, sair com vários questionamentos na cabeça sobre preconceito e convivência. Prato cheio pra quem derreter o cérebro ou analisar conceitos embutidos em animações de bichinhos. Segura o trailer.
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

Você pode comprar meu livro direto no site da editora ou nas livrarias!
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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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