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*Por Jader Pires

Voltei a usar camisas. Depois de um período de fadiga após anos de banco, vi com bons olhos a retomada do colarinho e dos botões, agora fazendo valer as minhas ambições de elegância, e não mais os protocolos de compostura e recato de um funcionário da casa bancária.

Fui até a loja e comprei uma que nem de longe recordaria quaisquer das funções corporativas, mas o oposto, uma engomada bonita e florida, vinho com motivos douradinhos, estilosa, provocante, vistosa. Experimentei, mandei ajustar, fui buscá-la depois de uns dias e estava no jeitinho para ser vestida e usada. Rumei com minha nova camisa para o trabalho e recebi elogios. Bonita, ficou bem em mim, eu devia usar mais dessas. Tudo muito bom e tudo muito bem.

No dia seguinte eu era de novo um comum. Camiseta e bermuda, o escritorzinho que todos estão acostumados a conviver. Nenhuma congratulação, zero expectativa para tal e outro dia se passou, como todos aqueles que já perdemos. Feliz de não fazer parte da realeza que vive de congratulações e hosanas. Otros dias viriam com a mesma normalidade, eu gostando bastante das minhas combinações vestuárias, mas sem nenhum apretecho novo que causasse a quebra do que é tranquilo, do comum. Até que, na semana seguinte, lá estava eu, de novo com a mesma camisa.

Novas análises, mais qualidades positivas associadas à peça que, consequen-temente, respingavam em mim. Bonitão, chique, refinado. “O Jader só vem com essa camiseta pra deixar a gente com inveja”, ouvi. E aí me chamou a atenção, não a graçola, mas o fato de tanta atenção chamar o mesmo adereço, a mesma danada camisa. Ela não é, acreditem, fora do comum, tão aconchegada no meu corpo a ponto de merecer estudos e nem tem gola ou estampa assinadas, diferenciadas. Não sou eu que fico garboso quando me enfio na lindeza dela, nada disso. A questão está na exclusividade que ela tem no meu guarda-roupas. Se eu aparecer com outra camisa no dia seguinte, no mês próximo, provavelmente ganharei mais gracejos e bons comentários. Alternando as duas, já começa a dar resultado, ambas perdendo, gradativamente, o caráter especial. Com três na gaveta, cinco, uma em cada dia da semana, rapidinho e acaba a festa, termina o pagode.

É tipo o amor, mas podendo escolher o tecido.
 
Pessoal, olá! Jader falando.

Há 60 anos, comemorados nessa semana, a senhora Rosa Parks, uma costureira negra norte-americana, recusou-se frontalmente a ceder seu lugar no ônibus a um branco. O ato ficou conhecido como "boicote aos ônibus de Montgomery", início da luta antissegregacionista nos anos seguintes. 


Bonito. Lindo.

O motorista teve que agir e questionou a senhora Parks: "Por que você não se levanta?". Ela respondeu: "Eu não deveria ter que me levantar". E não deveria mesmo.

Hoje, em São Paulo, 194 escolas estão ocupadas contra a reorganização decretada pelo Governo do Estado. Jovens politizados querendo estudar, querendo escola perto e querendo estudo de qualidade. Eles não querem ser vagabundos, como muitos pregam. Eles não querem sair. Eles não devem sair.

Resistam, molecada. Façam valer a pena. A gente tá morrendo de orgulho de vocês todos.

 

Os melhores discos de 2015 (Rolling Stone)

Que comecem as listas! A Rolling Stone já soltou a dela com os melhores discos gringos desse ano. Achei honestíssima. Alabama Shakes, Leon Bridges, Tame Impala e Wilko, tem Blur, Laura Marling, D'Angelo (puxado de dezembro do ano passado, mas justo entrar nesse) e o primeiro lugar merecido. 

Meu disco favorito do ano.

Aqui no Brasil, o Tenho Mais Discos que Amigos soltou a lista deles também (internacional ainda. A nacional deve sair em breve).
 
 


O fim da Cosac Naify

Uma editora a menos. A Cosac é conhecida por fazer livro-objeto, livros que valem, além de obras literárias, como objetos de arte, "de luxo". Nunca fez dinheiro (reza a lenda que só fecharam no azul um único ano, coisa de vinte reais) e tinha um catálogo bem responsa, nacional e gringo.

As livrarias estão vendendo livros de colorir e livros que complementam catálogo de produtos de gente com visibilidade na Internet. Literatura mesmo, tá pouco. O amigo Rodolfo Viana fala bem sobre isso:

"Como qualquer outra mercadoria - lembre-se: livro é como uma geladeira - , o preço do livro deve cobrir sua produção e gerar lucro. Se poucos exemplares são vendidos, o custo por unidade é maior. Se observarmos os dez livros de ficção mais vendidos em 2014, veremos que, somados, eles não chegam a 1,5 milhão de exemplares - sendo que A Culpa É das Estrelas, de John Green, abocanhou 44,1% de tudo isso."

E agora lá se vai a Cosac.

 


Recluso há anos, Raduan Nassar ganha traduções para o inglês em aniversário

Porque Raduan Nassar é dos meus. É dos favoritos. Leiam essa matéria da Folha de S. Paulo, leiam Lavoura Arcaica e leiam Um Copo de Cólera.

Apenas façam isso. 

 
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

Você pode comprar meu livro direto no site da editora ou nas livrarias!
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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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