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*Por Jader Pires.

Tem o bar em frente de casa, ele se chama Andorinha. Alguns cachaceiros mergulham os olhos em copinhos de água límpida que queima a garganta. Colecionam desapontamentos.

Do outro lado da rua, de onde estou, tem uma banca de jornal e, em frente, um casal de namorados gesticula alguma discussão sobre liberdade e ciúmes. Não dá para ouvir nada do que eles falam porque desponta da esquina o babaca que passa num Passat rebaixado com o som no último volume, no talo.

Da janela, a tiazinha com problema nas ancas reclama da barulheira enquanto, na outra esquina, o gordão que vende churrasquinho de gato é só sorrisos, já vendeu sei lá quantos vários espetinhos para dois amigos. Ele está prestes a levar um calote.

Daria até para se ouvir os calcanhares batendo na bunda se não fosse o babaca do Passat rebaixado com o som no último volume, no talo. Os dois pilantras correm com a carne entre os dentes enquanto as camadas de gordura do dono da churrasqueira vão se esvaindo em papas de suor na camisa azul claro. E nem toda a potência do batidão que atrapalhava o sábado poderia abafar o estampido do bofete que ela deu nele, a namorada que bradava com o namorado sobre saídas e ligações de gente desconhecida. Deu a troada e um adeus, foi-se embora.

É tudo isso que se vê daqui de onde estou, daí de onde vocês se encontram nesse momento.

E vocês estão vendo tudo isso do meio-fio, da sarjeta, da ponta da calçada, do lugar que não teve nem capacidade ou gabarito para ser fio inteiro, fio completo. E lugar mais democrático não há. A lona, o fundo do poço, o único lugar por onde todos passarão muitas vezes na vida, pois não há grana que salve gente alguma da derrota, do fracasso, do desassossego. 

Eis o camarote do cotidiano. 

É daqui, da beira da rua que se vê tudo, que se acompanha tudo, o lugar comum, o que pertence a todos, é da comunidade. Os textos desta nova newsletter são de vocês e todos estão em cada uma destas sentimentalidades. Você está brigando com a namorada e você está lá tomando esporro do namorado. É você quem passa com o som do carro no último volume e é você que reclama do barulho pela janela. É você que compra o churrasquinho da esquina e é você que acabou de dar pinote no cara da barraquinha de espetos.

Sintam-se à vontade para olhar, ver e reparar. Apropriem-se das palavras, das pessoas, da narrativa, dos sentimentos. Coloquem-se no lugar de tudo e todos e voltem para contar. Não vou convidá-los para ficar porque o meio-fio é de quem chegar e se sentar.

Agora a tia que xingava da janela desceu as escadas e abriu a porta que dá pra rua. Vai dar confusão.

Pessoal, olá! Jader falando.

A alegria não cabe, então vamos aos fatos. Eu criei essa newsletter para me aproximar de leitores e da carreira de escritor. Já são quase dez anos escrevendo na Internet e ainda não havia pensado em ter um “público”, digo, pessoas que efetivamente me leem e acompanham minhas escritas. Essa noção ficou um pouco mais clara depois que criei minhas colunas no PapodeHomem, o Cotidiano e a Do Amor, quando percebi o retorno, todas às sextas, de pessoas assíduas tanto nos comentários quanto em conversas no Facebook. 

Escrever ficção e crônicas é uma coisa muito doida, costuma ser uma tarefa mais solitária e o consumo também tende a ser mais particular. Então a necessidade de se ter um espaço para fazer isso mais em conjunto, ou melhor, perceber mais rapidamente a reverberação dessas tarefas mais reclusas - a de escrever e a de ler.

Com a Meio-Fio eu vou saber de modo mais concreto quantas pessoas estão me lendo, quem são essas pessoas, receber e-mail delas com feedback, broncas e agradecimentos. Venha o que vier, vai ser no tete a tete. Tenho a certeza de que, com o tempo, esse espaço vai ser retroalimentado, porque as pessoas vão me contar coisas que eu vou ter vontade de adaptar e escrever e isso vai inspirar as pessoas a contar mais e trocar mais. 

A ideia é chegar mais pertinho.

Vamos nos ver todas as semanas, sempre às sextas (ou aos sàbados, o que acham?) nesses textos do cotidiano. Agora vocês tem um e-mail direto para falar comigo (o jader@jaderpires.com.br) e podem me cobrar também lá no Facebook ou ver ainda as fotos mequetrefe que eu coloco no Instagram

Até a semana que vem então. Grande abraço!


O último The Daily Show (Jon Stewart)

Depois de dezessete anos, o comediante Jon Stewart deixa o The Daily Show, ótimo programa de comédia do canal Comedy Central. Um baita de um ótimo comediante e o último episódio teve entrevista com o Louie C.K.
 Recomendo fortemente aos que não conhecem ir atrás dos programas no YouTube.

Daqui, deixo esse trecho que ele é homenageado pelo Louie, esse trecho em que ele não faz piada alguma pra falar do atentado contra a igreja em Charleston e este em que reuniram alguns de seus melhores momentos.

Vão atrás que é coisa fina.

No Sufoco (Chuck Palahniuk)

Estou lendo essa semana meu segundo livro do Chuck Palahniuk com cara de primeiro, já que o anterior foi o Clube da Luta, leitura com gostinho de "eu já vi esse filme". 


Acabou que está dando certo. 

A escrita do Palahniuk deve funcionar, ou melhor, funciona sim, muito bem no inglês. Ler a tradução é legal, o ritmo é bom, a maneira com que ele desce a nossa sociedade a um nível bem baixo - e isso é lindo - compensa, mas sugiro fortemente aos que sabem inglês ler as obras do autor em sua língua mãe. Eleva-se a leitura a enésima potência.

End of Watch (David Ayer) 

O nome em português é "Marcados para Morrer", título que faz qualquer um desistir de assistir. Acontece que vi algum link com os melhores filmes do Jake Gyllenhaal e tinha essa foto aí de cima. 


Careca e psico. Bingo. Não de perde filmes com carecas psico. 

Grata a surpresa de ainda ter o ator Michel Peña formando a dupla de policiais de ronda e LA que começam a lidar com a maior atuação do cartel mexicano de Sinaloa no sul da cidade. De 2012, baita sinergia na atuação dos dois e as pequenas falhas de roteiro não atrapalham na história principal. Filmão. 

 
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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos cultuais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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