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*Por Jader Pires

Sabia dizer que era algum lugar entre Garganta e Graças a Deus, na Bahia. Rodava sentido Ilhéus quando o caminhão parou no atoleiro e não saía nem com reza brava. Rolou no barro, ralou na lama, sacolejou a boleia e nada de o caminhão andar. Só sujeira acumulada e tempo desperdiçado. Teria que esperar.

Na cabine, deu uma olhadela nuns papeis que havia no porta-luvas, ligou e desligou o rádio, tentou bater uma punheta pra abafar o tédio, mas estava sem ideias eróticas. Seu pau caía pelas tabelas e ainda não era nem meio-dia. O sol aborrecia, os pelos grossos no peito dele amontoavam-se com o calor, fabricavam ligas de suor, uma engenharia que empapava a frente de sua camisa bege de mangas curtas. Abriu um botão e depois dois. Sem a camisa, tornou a descer do caminhão. Olhava de um lado, praguejava de outro, chutava os calços que tentava fazer com pedras e tocos e, com as mãos na cara, rogava para os céus e pedia à santa mãe a remissão de quaisquer pecados que poderiam te-lo colocado naquela moléstia. “Ô, provaçãozinha dos infernos”, proferia com a boca toda enrugada e chacoalhando o punho fechado na direção do argiláceo.

De cócoras na traseira do Mercedes-Benz, um LP 321 1973 todo laranja, fitava uma poça qualquer. Em vez de o reflexo do céu, enxergava apenas a Cidade Nova toda iluminada na noite quente, aquele bafo bom vindo do mar e o jogo do seu Sport passando na televisão do porto. Queria só chegar a tempo de ver a peleja da Ilha do Retiro. Se bem que, do jeito que tava ruim pro lado dele, era até bem melhor ver jogo nenhum pra não respingar seu caiporismo momentâneo no coitado do Sport Club do Recife e ainda fechar o dia desastroso devendo caixa de cerveja pra algum segurança lá do cais.
Imagine só a lambança maior que a dessa jeringonça atolada no meio do nada, já devia uns três fardos pro Clodoaldo lá em Salvador, aquele branco safado que gostava de machucar puta de beira de calçada e não tinha nenhum filho de uma mãe pra dar de frente com ele e dizer que ia fazer com a mãe o que ele fazia de maldade com as meninas. E que que foi se meter com aquele sicário pistoleiro de merda que conhece a polícia todinha e fica de bar em bar somando dinheiro da sinuca, conferindo as fés do jogo do bicho e dando sopapo em mulher.


E Gracinha, sua esposa, que soubesse dessas intimidades do seu homem com esse tipo de sujeito, ai dele se ela descobrisse que as férias chegavam diminuídas por conta de jogo, deus o livre de passar pela cabeça dela que ele gastava com birita e rameira. Ela já estava com a macaca porque ele não havia consertado o varal e viajou de novo. A mulher trabalhava de vender boneca de pano na feira e não tinha tempo pra ser dona de casa sozinha não. Tinha duas crianças pra cuidar e ele que ficava com a responsabilidade de manter a casa em dia, os móveis ajeitados, a pintura um brinco, a garagem varrida e o varal sempre em ordem. O filho e a filha, logo o casal todo, estavam também doidos da cara com o pai que lhes prometeu doce de banana na lata e não levou.

“Diabo”, pensou coçando a cabeça e com os lábios dentro dos dentes, como se chupasse a boca toda pra dentro. Tava ruim com todo mundo. Vai ver tava tudo certo ele estar naquele aperto. Do mato da beira da estradinha saiu um matuto. Deu a volta no caminhão, observou o trabalho paliativo do caminhoneiro, leu a placa e soltou: “tá triste, pernambucano?”. Ainda agachado, apontando com as duas mãos pro atoleiro, o motorista devolveu: “mas ué, não tá vendo não?”. O jeca riu um riso sem dente. “Mas tenha calma, homem. É bom quando tá tudo ruim que aí só tem o que melhorar”. Tirou seu chapéu em saudação e seguiu pro outro lado, adentrando no mato de novo.

Realmente, agora só tinha que dar certo.
Pessoal, olá! Jader falando.

E como é bom sentir essa receptividade sensorial e emocional se revelando mais intensa novamente. “Ando tão à flor da pele”, como diria o cancioneiro. Vi uma animação japonesa nos últimos dias, falei dela na Meio-Fio retrasada, de uma graciosidade tão bonitinha que me levou às lágrimas como há tempos não acontecia. Chorei outras dez vezes escutando o novo disco do Emicida, pensei na mãe, nas pessoas, a enxurrada de verdades que inundou a cabeça e saiu pelo ladrão dos meus olhos.  


Ando curtindo os cheiros, a vizinha aqui de baixo faz um bife perfumado que só. Eu tô curtindo o tato, abraçando demoradamente as pessoas queridas, serpenteando na cama atrás das pernas da pequena. E como é bom. 

Não sei ao certo porque - ou se - fiquei meio bruto nos últimos tempos, durão de besteira, sem me entregar. Bobagem grande, claro, não façam o que e faço, o que eu fiz. Ando bem sensível esses dias e tô aproveitando cada gaitada com os amigos e todos os prantos bons, feito aqueles sambas lindos que te deixam feliz ouvindo histórias tristes.

Aproveitem-se de mim que eu ando no talo, no jeito, no esquema. Me façam chorar.

Projeto Humanos. (Anticast/B9)

E se fizéssemos narrativas de histórias reais, de pessoas reais? Se iniciativas como o Humans of New York e o SP invisível já estão fincando bem essa ideia na escrita, agora temos a oportunidade de amplificar isso com o áudio.

É esse o intuito do Projeto Humanos, encabeçado pelo Ivan Mizanzuk do podcast, sempre ótimo, Anticast.  


"Tendo como proposta a exposição de narrativas pessoais, a primeira temporada chama-se As Filhas da Guerra e contará a história de Lili Jaffe, uma iugoslava judia que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz e escreveu um diário sobre suas experiências lá. Este diário foi publicado no livro O que os Cegos Estão Sonhando?, lançado em 2012 pela Editora 34, graças à sua filha, a escritora Noemi Jaffe."

Apenas ouçam.

 


Jauja (Lisandro Alonso)

Um filme argentino com produção brasileira e com o ator Viggo Mortensen (o Aragorn de O Senhor dos Anéis) como protagonista. Jauja é um "western patagônico" feito com câmera estática, ou seja, tem um ritmo diferente do que se está acostumado. Altamente recomendado, mas vá com essa ideia de ritmo na cabeça.

A narrativa contemplativa mostra um desbravador dinamarquês que está tentando encontrar Jauja, um equivalente ao Eldorado, a terra onde jorra leite e mel. Nessa, ele precisa entrar numa jornada forçada em busca da filha perdida.

Solidão, silêncios, belezas e mais belezas do sul argentino.

 


A caixa-preta (Amós Oz)

Este livro, meus amigos, pesa dezesseis toneladas.

Não pelo tamanho, mas pela densidade e tema. Um relacionamento que acabou e começa, anos depois, a ser dissecado por meio de cartas, desbravado e desvendado feito os segredos que só a caixa de segurança de um avião poderia guardar.

O livro todo é montado em forma de cartas escritas por ex-marido e ex-mulher, mais entradas do filho do casal e do atual esposo dela. Verdade atrás de verdade, peso em cima de peso, fantasmas e mais fantasmas.

Este foi o terceiro livro que li do escritor israelense e, olha, não acho que vou parar por aqui não.
 
"As treze histórias presentes no livro estão repletas do cotidiano, por onde desfilam personagens das mais variadas origens: um vendedor de crack, um político, um casal de idosos e um mágico de circo. As angústias e alegrias experimentadas por todos esses personagens – e que também são nossas – são expressas em situações fortes e incisivas, mas por vezes bem-humoradas, que aproximam o leitor da trama, sem deixar de fora detalhe algum.

Em Ela prefere as uvas verdes, entramos em contato com personagens em momentos surpreendentes de suas vidas. Momentos em que as perdas e os encontros trazem profundas transformações."

Você pode comprar meu livro direto no site da editora ou nas livrarias!
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A Meio-Fio é uma publicação semanal do escritor Jader Pires com a missão de levar literatura em doses homeopáticas e uma pequena curadoria de produtos culturais e textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Se você gostou destas sentimentalidades, recomende a Meio-Fio para um amigo.

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