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2071 ou "pós-verdade"
Ensaio da Cidade Cinza
Dicas
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Imagem: Oxford Dictionaries
2071
(ou "pós-verdade")

 
Os funcionários públicos têm que acompanhar os eventos repassados pelo Governo e editar as notícias para que reflitam a realidade. Toda manhã, o Presidente faz um pronunciamento contra os nossos inimigos e nos incentiva na luta. É um grande homem. Os inimigos mudam de acordo com as alianças e os interesses momentâneos do Governo. Os inimigos sempre foram os mesmos. Segue a vida. Se ouviu algo diferente disso, é mentira: favor denunciar às autoridades mais próximas. A vida tem sofrimento, mas a culpa não é sua, nem do Governo, mas dos inimigos. Quando a guerra acabar, tudo será melhor. Estamos aqui para isso.
A linguagem deve ser precisa e cada palavra deve ter apenas um significado. Chega de ambiguidades que só levam a desvios de pensamento. Os dicionários devem ser constantemente atualizados, com novas e precisas palavras extirpando as antigas e ultrapassadas. É até melhor porque economiza tempo e dinheiro. Nunca vi ninguém que leu aqueles calhamaços do passado.
Comi hoje uma fatia de pão de forma com um pouco de margarina, um cafezinho e meio copo de suco de laranja. Não estava com muita fome de manhã. O estômago dói. Acho que preciso dormir mais cedo. Os médicos não têm tempo de atender todo mundo. A guerra exige sacrifício.
O Presidente se importa com a gente, com os ferrados. Falha minha, subprivilegiados. Ele até aparece para elogiar os nossos esforços e os funcionários que cumprem bem o seu serviço. Ah, e tem as manifestações. As pessoas gritam e torcem juntas. De vez em quando escapa uns palavrões, mas tudo bem, o Presidente também fala, então está tudo de acordo. Se não fosse essa guerra...
Acho que você não está entendendo. As coisas são assim, todo mundo sabe. Ou você está com a gente ou é um terrorista. Um inimigo. E inimigos não são tolerados. Todo mundo sabe que a gente comeria e viveria melhor se não fosse esse pessoal vindo pra cá pra tirar nossos empregos, roubar as nossas coisas e pegar as nossas mulheres. Temos de ficar de olho pra garantir a nossa segurança e lutar pra melhorar. Eles não podem ficar assim, impunes.
*
Poderia ser 1984 ou 2071, mas é o mundo nosso. As palavras e as narrativas moldam e direcionam a realidade. Cada vez que uma informação é redigida, o que ela diz, o que não diz e o modo como é escrita e repassada afeta a percepção sobre o que se passa e as decisões a serem tomadas. Um mesmo acontecimento pode ser contado de tantas formas que várias delas podem inclusive negá-lo.
No cotidiano, isso acontece em investigações criminais e processos judiciais, no futebol, nos relacionamentos com amantes e amigos.
 
"A gente terminou de comum acordo."
"Ela terminou com você. Ela que me disse ", falei pro meu amigo.
"Mentira, eu que terminei. Ela ficou super mal."
"Ela tava na balada, dançando."
"Tá se esforçando pra parecer bem", disse ele enquanto terminava o quinto copo de chopp.
 
Se definirmos verdade como "aquilo que objetivamente aconteceu", percebemos que é difícil estabelecer o que aconteceu com precisão. O método científico almeja estabelecer condições de observação e repetição de experimentos para que qualquer pessoa possa repeti-los com os mesmos resultados. Mas o método científico também tem falhas, pois muitos testes não têm parâmetros verdadeiramente objetivos. Uma base de análise muito reduzida ou muito recortada, a desconsideração de falhas na colheita dos resultados e variáveis importantes equivocadamente eliminadas, dentre outros fatores, podem levar a conclusões erradas. Em vinte anos de internet, devo ter lido dezenas de estudos consagrando e execrando o café. Eu, como ser racional, somente acredito nos estudos que comprovam a verdade, isto é, que o café é a melhor coisa que a humanidade inventou. Só a título de curiosidade, foi um pastor de cabras em um país da África que observou como os animais ficavam animados quando comiam umas bolinhas que cresciam em arbustos. Ele torrou os grãos, moeu e coou com água. Ao beber e não cair morto em seguida, descobriu o néctar líquido que move a sociedade e nos deixa animados como cabras.1
O próprio método científico como o percebemos é relativamente recente na história e é também uma criação mental. As tecnologias não começaram com o Iluminismo, como podemos ver nas ruínas do Império Romano e de ilustrações e gravuras que civilizações antigas deixaram para nós. Tampouco o culto da razão acabou com as superstições, as crendices e as religiões. Muitos católicos evitam passar por baixo de escadas para não terem azar, por exemplo, como se a invenção das escadas tivesse iniciado uma era de martírio e sofrimento.2
Aliás, o método científico sofre influências dos preconceitos e das metas dos próprios observadores, que são seres humanos.
No século XIX, Cesare Lombroso procurou demonstrar uma correlação entre características físicas e propensão à criminalidade. Apropriando-se da teoria darwinista, e com base numa análise da população carcerária italiana da época, Lombroso defendeu a teoria de que existiam criminosos inatos. Teve tanta repercussão que apareceu até nas histórias de Sherlock Holmes escritas por Conan Doyle. Posteriormente a teoria foi desacreditada, a começar pela ausência de verdadeiro critério científico. É só pensar que a população carcerária de um país não é um espelho de seus criminosos, mas o resultado de políticas públicas e de falhas do sistema judicial que favorecem determinadas classes e indivíduos e trata com extrema severidade outros. Aliás, a própria escolha das condutas apenadas com encarceramento define os potenciais presos e, no caso, os resultados da pesquisa lombrosiana.
A "pós-verdade" supõe a existência de uma verdade observável a olho nu, mas ignora que a realidade é mais complexa e diversa do que isso. Os acontecimentos não existem sozinhos. Sobre eles, é preciso que haja uma menção ou omissão num contexto narrativo. É assim com o Holocausto na Segunda Guerra Mundial, que veio a público depois da derrota da Alemanha com relatos, documentos e fotografias, mas cuja própria existência muitos negam até hoje; com a aterrissagem na Lua; com as vacinas; com a participação ativa das mulheres e dos negros na História; com o trânsito de São Paulo; com todas as pequenas e grandes violências do dia a dia.
Talvez o único mérito da "pós-verdade" seja o de questionar a importância isolada da "verdade", já que o ser humano não se guia pela verdade, mas por escolhas conscientes e inconscientes que moldam o seu caráter, as suas opiniões e as suas ações. Ele convive normalmente com religião, crendices, preconceitos, conceitos, valores e pensamentos baseados em dados ou em nada, teoricamente incompatíveis ou inconciliáveis entre si, e exige e critica nos outros as mesmas coisas. Ele conta verdades, meias verdades ou mentiras para seguir em frente. Quando deita a cabeça no travesseiro, não se preocupa com postulados, métodos indutivos ou dedutivos ou falácias, porque o cérebro humano não é feito de conceitos, mas por células que o ajudam no objetivo primal de existir, sobreviver e replicar. O disparate e a idiossincrasia fazem parte da humanidade e constroem a realidade. Mentiras são tão reais quanto verdades. Compra-se e vive-se por impulso.
No fim, quando alguém perguntar qual o som de uma árvore que cai na floresta sem pessoas, pergunte de volta: qual é a história que se quer contar com essa árvore?
Notas de rodapé:
1 Li num rótulo de Nescafé™ solúvel. Não pode ser mentira.
2 Evite passar sob escadas porque pode cair alguma coisa na sua cabeça.
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Ensaio da Cidade Cinza*
 
Vi os jatos d'água apagarem as obras de arte nos muros da 23 de maio em São Paulo e, vou ser honesto, fiquei triste.
Triste de ver a diversidade de cores e de traços de mais de 200 artistas se perder sob os jatos da água, revelando o cinza encardido por baixo.
Fiquei pensando que talvez isso mostre o quanto nos enganamos, que achávamos que as cores éramos nós, enquanto, na verdade, eram só uma maquiagem da nossa verdadeira natureza, cinza, encardida e trincada.
Me perdia olhando os desenhos, tentando adivinhar, de longe, quem tinha feito qual obra, o que o artista quis dizer, a fineza de alguns contornos, a crudeza de outros.
Agora quando voltar pra São Paulo vou olhar praquelas paredes cinzas, de cor de asfalto desgastado, e pensar na aspereza da alma das pessoas que confundem limpeza com opressão, que acham que um nada porco é melhor do que qualquer coisa bonita, que não conseguem ser felizes e têm que pisar na flor que tem a soberba de crescer no lugar errado, nas ruas erradas da cidade.
Duvido que um ser humano olhe para uma parede carcomida e seja feliz.
A arte não existe pra cumprir uma função de engenharia, mas para dar prazer, alegria, reflexão, sonho, pesadelo.
Paredes cinzas só servem para uma coisa: prender-nos dentro de nós, sem nenhuma porta ou janela para um mundo diferente.
Talvez essa tenha sido a intenção. Não sei.
Só sei que quando voltar pra São Paulo, vou continuar com saudades de São Paulo, de uma São Paulo que ousou ser um pouco feliz.

* texto baseado em cores reais.
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* Saiu nessa semana mais um episódio do Podcast Curta Ficção, comandado pelos escritores Thiago Lee e Janayna Bianchi Pin. Participei pela primeira vez como convidado para falar sobre as origens e as perspectivas da ficção científica.

* Os documentários A 13ª Emenda e Requiem for the american dream, na Netflix. O primeiro fala do que aconteceu nos EUA logo após o fim da escravidão, do encarceramento em massa dos recém libertos até os dias de hoje. Já Requiem é uma longa entrevista com Noam Chomsky sobre o que aconteceu com a democracia.
* O conto The muses of Shuyedan-18, por Indrapramit Das, que conta a história de um planeta colonizado por humanos onde uma raça alienígena imprime na própria pele tudo o que observa, inclusive as diferentes fases do relacionamento do casal protagonista. O conto foi publicado originalmente na revista Asimov's de junho de 2015 e compilado no livro The year's best Science fiction - Thirty-third annual collection, editado por Gardner Dozois. Tem versão física e em ebook.
* Na eternidade é sempre domingo, de Santiago Santos. Li a versão digital. É diferente de tudo que li, é uma combinação de realismo mágico com fantasia e diário de viagem. Fiz uma mini-resenha no Goodreads.
* A Revista Trasgo #13 lançou mais uma edição (digital). A Trasgo é uma revista de contos de ficção científica e fantasia com (certa) periodicidade e que pode ser lida aqui. Aliás, é a única do gênero no país que remunera os autores, todos brasileiros.
* A banda Queen. Qualquer música. Mas comece por Bohemian Rhapsody, Who wants to live forever e You're my best friend.
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imagem do filme 1984, de 1984, baseado no livro 1984, de George Orwell.
crédito da imagem: monolitonimbus.com.br
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